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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Não tínhamos mais objeção de qualquer espécie, nem essas patranhas de honra e dignidade com que andam por aí uns certos sujeitos a embaraçar os outros. Negócio decidido; sem olhar à fazenda, quero dizer, à pequena? 

- Sendo ela como o senhor assegurou... 

- Está visto! Escute, não prometo nada; mas espere-me amanhã em sua casa, que eu lá estarei por volta das nove. 

Lemos aviou uns negocinhos; muniu-se de uma folha de papel selado de vinte cruzeiros; e depois de jantar deu um pulo às Laranjeiras. 

Aurélia estava lendo na sala de conversa; mas o estilo de George Sand não conseguia nesse momento cativar-lhe o espírito que às vezes batia as asas, e lá se ia borboleteando pelo azul de uma sesta amena. 

Quando lhe anunciaram o Lemos, ela sobressaltou-se; e o tremor agitou as róseas asas da narina, revelou a comoção interior. 

- Uma pequena dificuldade ocorreu naquele nosso negócio, é o que me traz.

- Qual foi? 

- O Seixas... 

- Já lhe pedi que não pronuncie este nome, disse a moça com um modo austero. 

- É verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação... Ele exige vinte mil cruzeiros à vista, até amanhã, sem o que não aceita. 

- Pague-os! 

A moça proferiu esta palavra com aquele timbre sibilante que em certas ocasiões tomava sua voz, e que parecia o rangir do diamante no vidro. 

Cobria-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore. 

Não percebeu Lemos esse profundo confrangimento, atrapalhado como estava a tirar do bolso uma das folhas de papel selado que estendeu sobre a mesa, alisando-a com as palmas das mãos. Depois molhando a pena, apresentou-a à moça: 

- Uma ordenzinha! 

Aurélia sentou-se à mesa e traçou com uma letra miúda de talhe oblíquo algumas linhas. 

- Para que pede ele este dinheiro? Perguntou a menina enquanto escrevia. 

- Não me quis dizer; mas eu suspeito; e tratando-se de uma união, de que depende o seu futuro, Aurélia, não devo ocultar coisa alguma. 

- É um favor, que lhe agradeço. 

- Não tenho certeza; mas desconfio que é uma rapaziada. O nosso José Clemente fez um palácio para guardar os doidos, mas vieram os meus francesinhos e inventaram o tal Alcazar que é uma casa de fazer doidos; de modo que eles já não cabem na Praia Vermelha. 

Aurélia mordia a extremidade da caneta, cujo marfim escurecia entre os dois rocais de seus dentes de pérola. 

- Não importa! 

E assinou a ordem. 

No dia seguinte à hora aprazada estava o Lemos em casa do Seixas. 

O negociante tirou do bolso a seguinte folha de papel selado. 

- Temos que passar primeiro um recibozinho. 

- Em que termos? 

Depois do uma pequena discussão em que os escrúpulos de Seixas relutaram contra a imposição da necessidade, assinou o moço contrariado esta declaração: 

"Recebi do Ilmo. Sr. Antonio Joaquim Ramos a quantia de vinte mil cruzeiros como avanço do dote de cem mil cruzeiros pelo qual me obrigo a casar no prazo de três meses com a senhora que me for indicada pelo mesmo sr. Ramos; e para garantia empenho minha pessoa e minha honra." 

Depois de verificar que o recibo estava em regra, Lemos contou com destreza de um cambista o maço de notas que trazia e o entregou ao moço recolhendo uma das cédulas: 

- Dezenove mil novecentos e oitenta cruzeiros... com vinte de selo... 

Seixas recebeu o dinheiro com tristeza. 

- Maganão feliz!... 

Soltando a sua implicante risadinha, Lemos fez duas piruetas, deu três saltinhos, beliscou a coxa de seu interlocutor e desceu a escada como uma bola de borracha aos ricochetes. 

 

IX 

 

Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição. 

(continua...)

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