Por José de Alencar (1870)
Por madrugada ouviu Manuel longe uns ornejos de zanga, e não vendo a Morena, seguiulhe a pista. Acabava ela de despedir a rosilha, e vinha aos saltos, contente e folgando, oferecer o costado ao cavaleiro. Seria ingratidão recusar; depois de amamentado o alazãozinho, partiu aquela família selvagem, que se tinha formado no deserto, em face da natureza.
Ao pino do sol, encostou-se Manuel com uma tropilha, à frente da qual reconheceu D. Romero.
— Bons-dias, amigo, já vem de volta? Então foi buscar o poldrinho também? Dessa não me tinha eu lembrado.
— Viva, senhor, respondera o gaúcho secamente.
— Quer o amigo por ela com poldrinho duzentos patacões? Tenho que fazer um mimo a certa moçoila... É pegar da palavra, enquanto não me arrependo.
Nada mais natural do que oferecer preço por um cavalo, objeto de comércio. Alguns donos até se desvanecem com as boas propostas que lhes fazem. Cada preço alto é um brasão de fidalguia para o animal.
Irritou-se entretanto o Manuel com o oferecimento do chileno. Pareceu-lhe aquilo uma afronta igual à de pôr a preço uma pessoa de sua família, uma irmã.
— Se lhe pesam seus patacos, pinche-os, que não faltará quem os apanhe, respondeu com tom ríspido.
— Por pouco se escandaliza o amigo! disse o chileno sempre calmo e polido.
— Até ver, senhor.
Por volta da noite, chegou o gaúcho à pousada, de onde saíra havia quatro dias. O Perez já não o esperava mais, cuidando lá consigo que o homem levara a breca, arrebentado com a égua aí sobre algum barranco.
Depois de bem agasalhada a Morena e o poldrinho, trouxeram um bom assado de couro com escaldado, que o Manuel comeu, escanchado na ponta do banco que lhe servia de mesa.
Aí contou Canho ao Perez os incidentes de sua jornada pelo deserto, tais como eu fielmente os reproduzi. O que porventura parecer estranho, corre por conta do gaúcho, em cuja existência, aliás, havia muitas coisas, que não se compreendiam.
— Caramba! exclamou Perez. Por uma noiva, e pelo pequerrucho que lhe ela desse, você não fazia mais do que pela égua e seu poldrinho.
O Canho ficou no semblante do entrerriano os olhos surpresos. Estranho sorriso perpassou-lhe nos lábios.
— Por uma mulher, nada!
— Ai, que você está mordido, Canho! Alguma lhe fizeram. Essas raparigas são assim mesmo: gostam de moer a gente, como pimenta em almofariz.
— A mim, não, que não lhes dou este gostinho.
— Ora!
— Acredite, se quiser; mas digo-lhe que nunca até hoje me bateu o coração por mulher; e desejo morrer assim. Não pode haver maior desgraça para um homem!
— Também isso é demais.
— Eu as conheço. Gostam de todos, mas não podem viver para um só: se morre aquele a quem pertenciam, já não se lembram dele; e começam a querer bem a outro. Mas é só pelo gosto de terem um companheiro; não que elas sejam capazes de sacrificar-lhe tudo.
— Muitas são assim, não há dúvida.
— Todas, Perez. Onde acha você uma rapariga capaz de fazer o mesmo que a baia? Porque eu salvei-lhe o filho, tornou-se cativa; e para me acompanhar e me servir deixou sua terra, suas amigas e sua liberdade.
— Lá nesse ponto, também nós homens não nos podemos gabar.
— Nem eu digo o contrário. Todos os amigos juntos não valem o Morzelo que foi de meu pai; mas os homens, ao menos, não enganam tanto!
O Perez deu boa-noite ao Canho; e foram ambos se acomodar. O gaúcho, porém, não pôde pregar olho, durante muitas horas; o vôo sussurrante de um morcego, que adejava no pátio, o sobressaltou.
Ergueu-se por vezes; foi ao pasto ver se a égua dormia, e se o poldrinho desprotegido era vítima do vampiro. Fazia um frio intenso; acendeu um pequeno fogo de ossos, porque não havia no campo outra lenha; mas só descansou quando pôde com a haste da lança abater o morcego.
XIII
A MALIGNA
No dia seguinte o gaúcho estava de pé ao primeiro vislumbre da madrugada. Encilhou o Ruão e despedindo-se de Perez, se pôs a caminho.
Três horas andadas, avistou uma casa sobre a esplanada da coxilha. Seu coração bateu com alvoroto. Ali morava o assassino de seu pai. Chegara enfim o dia, o momento da vingança esperada pacientemente.
Quando o Canho, parada um instante, olhava a casa, passaram por ele duas pessoas a cavalo; um frade e um peão de cor preta.
— Parece que o homem não escapa mesmo, padre.
— Com o favor de Deus tudo é possível, filho; mas ele está muito mal.
— Uma coisa tão de repente. Não há uma semana que fizemos juntos o rodeio.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.