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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

E o rei:

– Visconde, escreva na lista.

O Nunes sentou-se à mesa, pedindo vénia a Sua Majestade, que ditou:

– Gaspar Ferreiro, reformado em coronel de infantaria, com vencimento desde 1838. Escreva à margem: Batalha de Santo Tirso. – E voltando-se para Zeferino, que ladeava para a parede:

– Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá soldo dos sete anos passados.

O Zeferino abriu a boca para dizer o que quer que fosse.

– A carta do meu velho amigo Teixeira? – perguntou o rei ao visconde Nunes.

– Cerveira, perdoe Vossa Majestade, Cerveira Lobo.

– Ah! sim... Cerveira Lobo.

Abriu, leu para si, passou a carta ao secretário, e comentando exultante:

– Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens assim dedicados, o triunfo é certo. Posso dizer com o grande vate Camões:

E dir-me-eis qual é mais excelente

Se ser do mundo rei, se de tal gente.

Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas, olhou com espanto para o outro, que lhe disse à puridade, discretamente:

– Diz que ele tem estudado o diabo.. até o latim!

El-rei prosseguiu:

– Vou responder por meu próprio punho ao meu nobre amigo. É digno desta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista: Vasco da Cerveira Lobo, general de cavalaria, e conde de Quadros.

Depois, tirou de uma velha pasta de papelão uma folha de almaço, sentou-se a escrever – e que conversassem.

O abade, capelão-mor, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro e pastéis de Guimarães, cavacas do convento dos Remédios e forminhas.

Havia mastigação de mandíbulas pesadas; as forminhas eram frescas, muito torriscadas, davam rangidos numa trincadeira voluptuosa. Conversava-se em dois grupos. O sargento-mor de Rio Caldo contava passagens de caça no Gerês, com enfáticos arremedos, movimentados, de altanaria. Que o porco-bravo viera direito a ele, e cortava mato, troncos de giestas como a sua coxa – e mostrava –; tinha apanhado de raspão a cadela, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e ele então caíra sobre a esquerda, e trepara à fraga da Portela, e esperara o porco na clareira; e mal ele apontou, pumba! meteu-lhe três zagalotes no quadril.

– A gente a falar incomoda talvez el-rei – observou o barão de Bouro.

– Podem conversar à vontade, que não me incomodam.

– Aquilo é que é cabeça! – disse baixinho, tocado, um dos cónegos a outro cónego.

Generalizou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes lacónicos, circunspectos, com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos. – A virar! a virar! – Carminavam-se os cónegos. O Dom Prior de Guimarães sugeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois padres Marcos, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de São Gens de Calvos, dizia do outro:

– Forte bêbedo!

O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e enquanto os padres. num crescendo palavroso, explodiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o secretário privado curvou-se sobre o ombro de el-rei e segredou-lhe:

– Carrega-lhe!

– Ora....

– Quanto?

– 2.

–3. Anda-me. 3.

–Será muito!...

– Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.

E, em voz alta e voltado para o grupo:

– El-rei pergunta se o Sr. Conde de Quadros tem família, se tem senhora e filhos.

O Bezerra perguntou ao Zeferino.

Que soubesse Sua Majestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e três raparigas, uma já casada; mas que a fidalga, a mulher dele, aqui há anos atrás, tinha fugido com o doutor dos Pombais, e nunca mais voltara.

– Desgraças! – disse o capelão-mor – desgraças! A corrupção dos tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se lhe há-de dar.

Fez-se um silêncio condolente. Todos sentiam o caso infausto.

O rei continuava a escrever, devagar, polindo a frase, boleando os períodos; achava dificuldades em se medir com as locuções redondas e muito adjectivadas da retórica do padre Rocha. Animava-o, porém, a ideia de que D. Miguel não tinha fama de sábio, e que a sua carta seria mais verosímil com alguns aleijões gramaticais.

Releu a carta, e acrescentou às vírgulas. Pediu obreia ao Munes. Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente recortada.

O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua Majestade dobrou em quatro a folha do almaço e sobrescritou – Ao conde de Quadros, general do exército real.

Nesta ocasião, o Cristóvão Bezerra chamou de parte o Nunes, falou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: for do agrado de Sua Majestade.

– Eu vou falar a el-rei – disse Nunes com satisfatória condescendência.

(continua...)

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