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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Há poucos dias; desde que falei pela primeira vez ao Compadre Quintino. Mas, você não disse que vinha buscar um papel que lhe caiu das mãos? É bom ir buscá-lo antes que ele se extravie.

- Tem razão - disse eu, indo buscar a carta.

E, ao voltar para junto de minha sogra, perguntei-lhe:

- Sabe o que me trouxe a esta casa?

- Diga.

- Vim à procura de minha mulher.

- De minha filha?

- É verdade.

- E encontrou-a?

- Ainda não sei, esta carta é que vai decidir.

- Pois não volte lá, que perde o seu tempo.

- Como? Explique-se.

- Já lhe disse o que tinha a dizer. Não vá, que perde o seu tempo. Se quiser encontrar Margarida, espere um pouco por mim. Deixe-me recolher esta roupa e podemos ir juntos.

- Ao lugar onde ela está?

- Sim senhor. Eu me comprometo a restituí-la. E, olhe, o que lhe afianço é que ela vai para as suas mãos tão pura ou mais do que quando fugiu de casa.

- Calculo!

- Calculo, não, coitadinha! Que ela não cometeu a menor falta; apenas foi vítima de uma trapalhada, da qual o senhor é o único culpado.

- Homessa agora é melhor! Pois ainda em cima sou eu que levo a culpa?

- Com certeza, mas deixe-me acabar com isto, que já lhe dou trela.

Daí a meia hora saía eu da estalagem com minha sogra, que acabava de se preparar para isso.

Ela chamou um carregador de sua confiança, ordenou-lhe que levasse o cesto de roupa para o Campo de Sant’Ana, e, atirando um xale sobre os ombros, segredou-me ao ouvido:

- Antes de tudo, vamos procurar meu compadre.

- Onde o vamos procurar?

- Na Rua do Ouvidor.

- Na redação dO Paiz?

- Ai, ai!

A idéia de entrar na redação dO Paiz ao lado de minha sogra pareceu-me a mais ridícula do mundo, mas não havia que hesitar: a mulher prometera restituir-me a filha e isto era todo o meu empenho.

Ao chegarmos ao escritório da folha, ia perguntar a um moço loiro que estava ao balcão, se era possível falar ao Sr. Quintino, quando minha sogra me puxou pelo braço e exclamou:

- Não esteja a perder tempo! Quando se quer falar com alguém vai-se logo subindo!

E, antes que eu a detivesse, já o demônio da velha galgava as escadas e, com um desembaraço dos diabos, levantava pouco depois o reposteiro da sala privada da redação, gritando para dentro:

- O compadre dá licença?

- Entre - respondeu o redator-em-chefe da folha.

Ela não esperou segunda ordem e ganhou a sala, exclamando para mim, que ia atrás:

- Entre você também, meu genro!

A estas palavras o redator espichou levemente a cabeça e mediu-me com o seu olhar penetrante e desconfiado.

- Que deseja a senhora? - perguntou ele.

- Venho. para saber que há de novo sobre o homem.

- Se a senhora tivesse lido O Paiz, saberia que se vai proceder amanhã à exumação do cadáver no Cemitério de São Francisco Xavier.

- De que cadáver? - perguntei empalidecendo.

- Do suposto Castro Malta.

- Pois é tempo perdido - disse eu -, porque ele lá não está.

- Disso já sei eu! - acrescentou o Sr. Quintino -, mas quero levar a questão avante.

- O Castro Malta está em minha casa. Posso apresentá-lo, quando V.Sª. quiser.

- O senhor está louco?

- Digo a verdade. Se V.Sª. quiser a prova, eu o trarei amanhã aqui.

- Não. Quero que traga hoje mesmo - respondeu o redator, correndo a sua mão pálida por um pesa-papéis que estava sobre a mesa e representava uma luva amarrotada.

- Mas hoje mesmo não é possível - retorqui. - Daqui tenho de ir com minha sogra a...

- Não! - atalhou esta. - Não! Se você diz que o Castro está em sua casa, vamos lá em primeiro lugar. Quero vê-lo!

- Mas, esse Castro - perguntou o Sr. Quintino a Dona Leonarda -, esse Castro não é o mesmo que a senhora me afiançou haver morrido na Casa de Misericórdia?

- É, ou pelo menos deve ser.- Mas então como está vivo?

- Ora essa! porque não morreu!

Tive ímpetos de confessar ao redator tudo que sabia a respeito do fato do Cemitério; mas por esse tempo a questão Castro Malta havia já tomado tais proporções entre o público que eu, receoso de futuros incômodos, resolvi não dar uma palavra, arrependido até de haver feito a declaração que me escapara dos lábios.

- Bem! - disse o Sr. Quintino - amanhã. Espero-os aqui às 11 horas do dia. Não faltem.

- E se o homem não quiser acompanhar-me? - perguntei.

- Nesse caso irei eu ao encontro dele. Olhe! é até melhor que eu vá justamente. Deixe-me o número de sua casa e espere amanhã por mim às nove horas.

- Da manhã?

- Sim, senhor.

Fizemos as nossas despedidas ao Sr. Quintino e, já na Rua do Ouvidor, quis convencer a minha sogra de que devíamos ir primeiro ao encontro de Margarida, mas a velha não cedeu e puxou-me para os lados de minha casa.

(continua...)

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