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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Clorinda com efeito recebia agora com menos severidade a corte de João Rosa. Resistira a principio, chegou a repeli-lo uma vez com energia, ele porém voltara pacientemente, humilde, a repetir os seus protestos de amor. Ela hesitou; não disse abertamente que não, mas também não disse que sim. Ficaram no — talvez.

D. Januária é que pouco se mostrou preocupada com o novo pretendente da pupila; outra idéia a atormentava: é que há dois meses não recebia a mesada, que até aí lhe chegava às mãos, e esta circunstância a vinha colocar presentemente em sérios embaraços.

Mais um mês sem mesada e a miséria abriria as fauces medonhas e patentearia as unhas desapiedosas.

Foi o que veio a suceder. A suspensão da mesada colocou D. Januária em formidáveis apuros. A pobre senhora teve logo de encurtar a mão sobre umas tantas despesas e tomar encomendas de engomagem e costura.

Mas isso não bastava; o trabalho da mulher, por mais valioso que seja, é sempre estreito e mal recompensado. Embalde, mãe e pupila, puxaram heroicamente pela agulha e pelo ferro de engomar; embalde velavam grandes serões à luz de um bico de gás; nada chegava. Os recursos iam minguando de dia para dia, e a casa ia perdendo o ar próspero que até aí gozara.

Conchegavam-se os horizontes, e as duas mulheres estremeciam, sentindo já de perto o tossir impertinente da miséria e o terrível estalar das suas sórdidas moletas. Para onde fugiriam elas do espectro sinistro que se avizinhava a passos fúnebres? No deserto da sua pobreza não avistavam refúgio, nem uma só palmeira amiga, que de longe lhes acenasse, chamando-as à sombra hospitaleira.

E, assim, mais e mais se foram ambas retraindo. Fecharam-se às visitas que lhes pudessem acarretar a qualquer despesa; privaram-se de tudo que não fosse restritamente indispensável. Em breve seria necessário, depois de vendidas as jóias, arrancar do fundo da gaveta alguns desses objetos de valor, que às vezes certas velhas conservam como a última lembrança de um passado feliz.

Ah! é como se os arrancássemos do fundo do coração! Qual é a mãe, qual é a avózinha, que não guarda, embrulhados em papel de seda, os brincos com que casou ou a medalha em que guardava o retrato do marido ou do filho? Quem não possui um desses legados da felicidade, que, por mais insignificante, não represente toda uma existência extinta?...

Depois de vendido o piano, a mobília da sala de visitas e o mais que podia dar alguma coisa, D. Januária, na contingência de obter dinheiro, resignou-se à separação de poucos objetos de luxo que conservara do tempo do marido. Abriu a velha gaveta de sua cômoda, mas, ao tocar em uma caixinha de madeira polida, embalsamada pela antigüidade, as mãos principiaram-lhe a tremer e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Estava aí um colar de pérolas, que o marido lhe atara ao colo na noite do casamento. Nesse tempo ela era formosa, moça cheia de esperanças. Como assentavam bem aquelas pérolas na sua pele morena e fresca! mas como desmereciam de brilho e brancura, quando ela sorria e mostrava as outras pérolas da boca! Estas entretanto amareleceram e caíram, como as folhas no outono, e aquelas conservavam o mesmo brilho primitivo e a mesma sedutora alvura.

Ao ver esses objetos, testemunhas da sua extinta mocidade e cúmplice discretos da sua longínqua ventura, a pobre senhora transportou-se ao passado e ficou a meditar longamente. Que lhe restava de tudo isso?... Que ficou de tanto amor, de tanta beleza, de tanta juventude?...

— Nada! Só ela! Ela que, por bem dizer, já não existia!...

E, tomando nas mãos trêmulas os objetos que tirara da caixinha, beijou-os repetidas vezes, a abafar os soluços, para que Clorinda não os ouvisse da sala próxima.

— Mas é sempre certo que te tens de separar deles? perguntava-lhe o coração, a gemer. Não reparas, velha desalmada! que esses objetos são a única coisa que te fala do passado? não reparas que em torno de ti já morreram todos aqueles que viveram no teu tempo, aqueles que te amaram e te viram bela?! Despede-os, vende-os, mas vai-te também embora para a tua cova, que nada mais tens de fazer cá no mundo!

Clorinda, que se aproximara da mãe, sem ser sentida, encontrou-a a gesticular neste mudo diálogo, a mexer com os braços e a sacudir a cabeça, desvairadamente, em grande transbordamento de lágrimas.

— Que é isto, mãezinha?! Que tem a senhora?!

A velha olhou-a com sobressalto, e guardou contra o seio despojado o cofre das suas estremecidas relíquias.

— Mãezinha! Valha-me Deus! Diga o que tem!

A velha não respondeu e continuou a encará-la com desconfiança.

Havia desaparecido de seu rosto a doce expressão de bondade e ternura, e os olhos dela cintilaram com fúria.

(continua...)

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