Por Aluísio Azevedo (1884)
— Não! Não! Tu procedeste como um selvagem!,.. Tu foste violento! Tu foste brutal!
— Porque te adoro, minha vida!
— E juras que me amas?! Juras que não conheces outro ideal, outra preocupação, que não seja eu?! Juras que serás capaz de todos os sacrifícios por minha causa?!
— Ainda o duvidas?!
— Bem! Iremos juntos nesse caso; faremos os dois a viagem!...
— Sim, mas não é bonito, nem há razão para sairmos tão precipitadamente!
— Mau! Já principias tu com as objeções do costume!... Dessa forma não teremos nada feito!
— Mas, vem cá, minha santa, é que não há a menor necessidade de irmos como dois criminosos, que fogem à justiça! Para que havemos de nos sujeitar a umas certas coisas, quando, graças a Deus, não nos faltam recursos para termos todas as comodidades?...
— Oh! Eu mesmo faço muito caso das comodidades!...
— Sim, mas hás de confessar que...
— Ah! meu amigo! se tens medo de sair de teus hábitos, o melhor é desistirmos da viagem! Quem quer estar a gosto fica em casa!...
— Não é isso! não é isso! Já não está quem falou! Oh! Tu também te espinhas por qualquer coisa!...
— Pois então, nem mais uma palavra sobre o assunto, e, no primeiro vapor que sair para a Europa...
— Estamos de partida!
— Ora muito bem!
CAPÍTULO VI
PRIMEIRA DESILUSÃO
Não obstante, o Borges ainda não se podia considerar feliz. A mulher, depois da cena da alcova, tornou-se mais esquiva; enquanto que a paixão dele, como se recebesse um novo impulso, recrudescia de um modo fantástico. Mas continuava a ser o seu amante platônico, o seu namorado, disputando um sorriso, um olhar de ternura, à custa de enormes sacrifícios.
Durante os dias que precederam à viagem, o mísero não fez outra coisa além de procurar meios engenhosos de seduzir a esposa. Certo de que a violência não produzia bons resultados, tentou captá-la com presentes de grande valor; punha, a todo momento, à disposição dela, jóias caríssimas, cortes de seda do que havia de melhor. Depois, desiludido também por esse lado, lançou mão de outros recursos — tentou fasciná-la com a grandeza, falou-lhe em belas posições sociais, falou no seu título, que não devia demorar muito; mas, ainda assim, nada conseguiu: o maldito ferrolho estava, inabalável e frio, como uma lei da natureza.
Ele, porém, em vez de sucumbir, redobrava de coragem. Procurou afinar os seus gostos pelos dela; fazia-se triste, propenso às melancolias e aos êxtases; apertava muito a roupa ao corpo para figurar mais magro: fingia-se poeta — roubava os versos dos almanaques, torcendo-lhes os nomes e às vezes o sentido, versos que ele copiava pacientemente durante a madrugada e que deixava, como esquecidos, no seu escritório, sobre a pasta, molhados de pingos d'água, que representavam lágrimas arrancadas do coração. Outras vezes. quando a via de bom humor, fazia-se muito estouvado, cheio de rapaziadas, risonho, com fumaças de estroinice fidalga.
— Creio que agora se decide o negócio!... pensava ele esfregando as mãos — desta vez parece que vai.
Efetivamente, se tudo isso não conseguia logo a abolição do tal ferrolho, não deixava, entretanto, de modificar as reservas de Filomena e de fazê-la mais dócil e mais chegada ao esposo. Mostrava-se agora muito agradecida às finezas que dele recebia; mostrava-se amável e prometedora; ao jantar, tocavam os pés por debaixo da mesa; tinham apertos de mão ligeiros e assustados, beijinhos furtados e longos idílios ao luar, nos bancos do jardim ou debruçados no balcão da mesma janela.
— A bordo é que eu te quero pilhar!... dizia o Borges de si para si, mentalizando planos de ataque. — A bordo é que serão elas!
E tratou de realizar a viagem. A casa ficaria entregue aos criados.
Dias depois embarcavam num paquete francês, que seguia para Lisboa.
— Ora até que afinal!... considerou ele, quando viu a mulher já instalada no beliche. — Ora até que afinal estou livre do maldito...
E, de fato, pelo seu ar condescendente, por sua linguagem doce e pelas maneiras de tratar agora o esposo, Filomena parecia muito pouco disposta a morrer de saudades pelo ferrolho.
Mal, porém, começou a caminhar o paquete, que um terrível enjôo apoderou-se do pobre marido apaixonado e o prostrou no fundo de seu beliche, inútil e arquejante.
Filomena não lhe perdoou semelhante coisa. Enjoar!... enjoar em sua companhia! Oh! o Borges acabava de perder todo o prestígio que ultimamente havia conquistado!
— Mas não é culpa minha! lembrou ele, sem ânimo para erguer a cabeça.
— Reagisse! Tivesse mais domínio sobre si! Os espíritos fortes governam a matéria! Enjoar! Oh! Shocking!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.