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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

A república era muito no alto, sobre três andares, dominando uma grande extensão. Viam-se de cima as casa acavaladas uma pelas outras, formando ruas, contornando praças. As chaminés principiavam a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de leite caminhavam com o seu passo vagaroso, parando à porta dos fregueses, tilintando o chocalho; os quiosques vendiam café a homens de jaqueta e chapéu desabado; cruzavam-se na rua os libertinos retardios com os operários que se levantavam para a obrigação; ouvia-se o ruído estalado dos carros d’água, o rodar monótono dos bondes. Mais para além pressentiam-se cordilheiras, graduando planos esfumados de neblina. O horizonte rasgava-se à luz do sol, num deslumbramento de cores siderais. E lá muito ao longe, quase a perder de vista, reverbava a baía, laminando as águas na praia.

Embaixo, na área da casa, uma ilhoa, de braços nus, a cabeça embrulhada em um lenço de ramagens, lavava a um tanque de cimento romano; um homem, em mangas de camisa, varria as pedras do chão, cantarolando com os dentes cerrados, para não deixar cair a ponta do cigarro. Numa janela, um sujeito, de óculos azuis, areava os dentes e com a boca atirava duchas sobre um papagaio, cuja gaiola pousava no balcão. Dentro de um cercado cacarejavam galinhas, mariscando na terra; e o homem do lixo entrava e saia, familiarmente, com o seu gigo às costas.

Um relógio da vizinhança bateu seis horas.

Amâncio reparou que estava com muita sede, mas não descobria a talha d’água. Afinal encontrou-a, num sótão que havia ao lado do quarto e onde só se entrava vergando o corpo.

Bebeu até à saciedade.

Depois lavou o rosto e a boca. E, com a idéia de sair antes que os mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro que lhe restava, lamentando interiormente o que na véspera esbanjara; viu no chão uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela e ponta de pé, abriu a porta e ganhou a escada.

Entre o primeiro e o segundo andar encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos, que subia com dois copos de leite, um em cada mão, fazendo mil esforços para não os entornar. Ao ver Amâncio ela emperrou, cosendo-se à parede, a fim de lhe dar passagem, e olhou-o de esguelha, com medo de afastar a vista dos copos.

Era bonitinha, corada, os cabelos castanhos apanhados na nuca. Parecia portuguesa.

Amâncio ao passar por ela, estacou também, à fitá-la. De repente lançou-lhe as mãos.

A pequena, muito contrariada fez uma cara de raiva e gritou — que a soltasse! que não fosse atrevido!

E desviava o corpo, querendo defender-se mas sem se descuidar dos copos.

— Mau! mau! siga o seu caminho e deixe os outros em paz!

Amâncio não fez caso e conseguiu beijá-la à pura força. Derramaram-se algumas gotas de leite.

— Maus raios te partam! clamou a rapariga, assim que o viu pelas costas.— Peste ruim de um estudante!

* * *

A peste ruim do estudante saiu, e só interrompeu a caminhada para entrar num botequim, onde pediu café. Então, defronte do espelho, pôde admirar o belo estado em que se achava.

— Como diabo havia de apresentar-se naquele gosto em casa do Campos?... Também que triste idéia a sua — de se enterrar numa casa comercial?

Não! Com certeza estava mal hospedado... nem lhe convinha permanecer ali! — Oh! Bastava já de ser governado, de ser vigiado a todo instante! — Já era tempo de gozar um pouco de liberdade.

E, enquanto sorvia compassadamente o café, recapitulava na memória todo o seu passado de terror e submissão: — Antes de entrar para a escola de primeiras letras, nunca lhe deixaram transpor a porta da rua ou a porta do quintal; os outros meninos de sua idade tinham licença para empinar papagaios, brincar entrudo, queimar fogos pelo tempo de São Pedro; — ele não! depois caiu nas garras do professor, — aquela fera! Nunca saia de casa, sem levar atrás de si um escravo para o vigiar, para impedi-lo de fazer travessuras e obrigá-lo a caminhar com modo, direito, sério como homem. Afinal escapou ao professor, sim! mas continuou sob a dura vigilância do pai, do tio e das tias; todos rondavam; todos o traziam “num cortado”. Só na fazenda da avó conseguia desfrutar alguma liberdade, mas essa mesma não era completa e, ai! durava tão pouco tempo!...

Agora compreendia a razão pela qual, no mês de férias que passava aí, se tornava tão maligno, — é que naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava coagido em casado pai. De sua infância eram aqueles meses privilegiados a coisa única que lhe merecia verdadeira saudade; ao mais estrangulavam tristes reminiscências de castigos, de sustos, apoquentações de todo o gênero.

A própria idéias de sua mãe nunca lhe vinha só; havia sempre ao lado da venerada imagem alguma recordação enfadonha e constrangedora. — As poucas vezes em que estavam juntos, o pai chegava no melhor da intimidade e Ângela se retraía, cortando em meio as carícias do filho, como se as recebera de um amante, em plena ilegalidade do adultério.

E a memória desses beijos a furto e medrosos, a memória desses carinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe as vezes que ele em pequeno se metia no quarto dos engomados, de camaradagem com as mulatas da casa que aí trabalhavam conjuntamente.

(continua...)

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