Por José de Alencar (1875)
O esquecimento de Lemos porém veio abalar aquela firmeza momentânea; no semblante do moço pintou-se imediatamente a vacilação do espírito. Não escapou essa alteração ao velho que recostando-se na cadeira a jeito de olhar o seu interlocutor de meio perfil, se desfez em exclamações de surpresa:
- Ora!... O sr. Seixas!... O meu amigo desculpe!... Isto de negociantes... O senhor deve saber!... Temos a memória na carteira ou no borrador. São tantas as coisas de que nos ocupamos, que realmente só uma cabeça de duzentas folhas, como esta, pode chegar para tanto!
O velho soltou uma risadinha cacofônica e apontou para um livro mercantil colado sobre a carteira.
- Aqui está a minha, rubricada pelo tribunal do comércio e competentemente selada, com todas as formalidades legais. Ah! Ah! Ah!... Então, meu amigo, que manda a seu serviço?
- O Sr. Ramos mantém a proposta que me fez anteontem em minha casa? Perguntou Seixas.
Lemos fingiu que refletia.
- Um dote de cem mil cruzeiros no ato do casamento, é isto?
- Resta-me conhecer a pessoa.
- Ah! Este ponto, parece-me que deixei-o bem claro. Não tenho autorização para declarar, senão depois de fechado o nosso contrato.
- O senhor nada me disse a esse respeito.
- Estava subentendido.
- Qual a razão desse mistério? Faz suspeitar algum defeito, observou Fernando.
- Garanto-lhe que não; se o enganar, o senhor está desobrigado.
- Ao menos pode dar-me algumas informações?
- Todas.
Seixas dirigiu ao velho uma série de interrogações acerca de idade, educação, nascimento e outras circunstâncias que lhe interessavam. As respostas não podiam ser mais favoráveis.
- Aceito, concluiu o moço.
- Muito bem.
- Aceito; mas com uma condição.
- Sendo razoável.
- Preciso de vinte mil cruzeiros até amanhã sem falta.
O velho saltou na cadeira. Este caso o apanhava de surpresa.
- Meu amigo, se dependesse de mim... Mas o senhor sabe que neste negócio eu sou apenas um procurador oficioso. Não tenho ordem para adiantar a menor quantia. Quanto ao dote depois de realizado o casamento, este sim, garanto.
- Não pode emprestar-me sobre essa garantia?
Ao Lemos escapou uma careta que ele procurou disfarçar.
- Tem razão, observou Seixas sem alterar-se. V. S. não me conhece, sr. Ramos; e a posição em que me coloquei dando este passo, não é própria de certo para inspirar confiança.
- Não é isso, homem, acudiu o velho ainda um tanto atrapalhado; mas é que há viver e há morrer.
- Desculpe-me o incômodo que lhe dei, tornou o moço fazendo um cumprimento de despedida.
O negociante estava tão atarantado e perplexo que não correspondeu à cortesia de Seixas, e o viu sair do escritório, indeciso sobre o que devia fazer.
- Para que diabo quererá este marreco os vinte mil cruzeiros? Aposto que anda aqui
volta do Alcazar. O rapaz está caído por alguma das tais francesinhas; e elas que são umas jibóias!... Finas como um alhambre, mas capazes de engolir um homem!... Que dirá a isso a senhora minha pupila? Estará disposta a correr todos os riscos e perigos da transação?
Neste ponto de seu monólogo, o velho recobrando sua petulante agilidade, deu uma corrida à porta do armazém, onde ainda chegou a tempo de avistar o moço, que afastava-se a passos lentos, pensativo e de cabeça baixa.
- Oh! Sr. Seixas!... Faz favor!
- Chamou-me?
O negociante adiantara-se alguns passos na rua para ir ao encontro do moço.
- É só uma pergunta! Foi logo dizendo o velho para não incutir vã esperança. Se recebesse os vinte mil cruzeiros, ficava fechado de uma vez o nosso ajuste?
- Sem dúvida! Já o declarei.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.