Por José de Alencar (1861)
Alves — Pois bem, se for absolutamente necessário, aceitarei. Vou amanhã à Corte! verei o estado dos meus negócios e me resolverei.
CENA VIII
Os mesmos e Henrique
Henrique — Oh! Estás de volta enfim.
Alves — É verdade! E venho achar-te casado e feliz. O que são protestos de homem solteiro! (A Miranda) Na véspera de minha partida disse-me que nunca se casaria; e isso com um tom que me Convenceu.
Miranda — E um mês depois estava casado!
Henrique — Todos fazemos o mesmo. Quando se protesta é porque já o negócio está decidido.
Alves — Fizeste bem; o casamento é uma necessidade.
Henrique — Aos trinta anos: antes é um luxo. (Vão se afastando)
Alves — Estarás arrependido?
Henrique — Não! Minha mulher vive satisfeita de seu lado, eu gozo de toda a liberdade... Nem um aborrece ao outro. Compreendemos o casamento, não achas?
Alves — Teu tio me parece que o compreende de outra maneira!
Henrique — Temos gênios tão diferentes! Já sei que ficas conosco alguns dias.
Alves — Não posso nem passar a noite aqui; tenho que pôr em ordem as contas de minhas cobranças para amanhã seguir. (Afastam-se)
Miranda (a Isabel) — Obrigado, Senhora. (Aperta a mão)
Isabel — Me agradece, meu Deus!... Mas eu sinto não possuir outra fortuna para ter a felicidade de perdê-la, Senhor!
CENA IX
Isabel e Clarinha
(No fundo do portão vê-se Henrique, Augusto e Alves)
Clarinha — Bela!... Não viste Henrique?
Isabel — Está aí conversando com o Senhor Alves.
Clarinha — Não sei quem é?
Isabel — Um amigo de Augusto. Vamos ter com ele?
Clarinha — É o que faltava!... Chegou depois de dois dias e ainda nem me procurou!...
Isabel — Chegou agora mesmo!... Olha! ali vem ele.
Clarinha — Deixa-me só! Se estiveres aqui, ele nada me dirá!
Isabel — Tens razão. (A meia voz a Henrique) Clarinha está zangada: abraça-a.
Henrique — Adeus, Clarinha!
Clarinha — Ah! Já não o esperava!
Henrique — Também era demais. Duas noites pode-se passar fora de casa, porém três... Era um escândalo!
Clarinha — Ora! que tinha isso! Podia se divertir! Não reparo nestas cousas.
Henrique — Então não está zangada comigo?
Clarinha — Zangada por quê? Não nos casamos para aborrecermo-nos todos os 365 dias do ano... Divertiu-se muito?
Henrique — Nem por isso!... Perdi o meu tempo e o melhor perdigueiro.
Clarinha — Que desgraça!... Pois nós brincamos e passeamos muito. Mano ficou na cidade; porém o Senhor Sales fez-nos sempre companhia. Esteve muito amável.
Henrique — Faço idéia! Quantas vezes falou da viagem à Europa?
Clarinha — Uma vez só! Não sabes! Confessou-me que tinha feito essa viagem por causa de um desgosto que sofrera. Um casamento... Não sei o quê!...
Henrique — Estou muito fatigado para ouvir agora as histórias de Sales, Clarinha. Manda-me preparar alguma cousa para jantar... Venho morto de fome e de sono.
Clarinha — Pode dormir estes dois dias... Amanhã temos um passeio ajustado para a Cascatinha; a casa fica bem sossegada. Ah! Guarda-me esta chave! Não perca!
Henrique — Que passeio é esse tão fora de propósito?
Clarinha — Já convidei Bela, o tio Siqueira, e o Senhor Sales. Cuidei que não viesse hoje.
Henrique Se eu soubesse disso decerto que não vinha cá.
Clarinha — Foi pena!... Quando quiser, chame Augusto e venha jantar. (Sai correndo, e deixa o lenço com o bilhete de Sales, que Henrique apanha)
CENA X
Miranda, Henrique, Isabel e Iaiá
(Alves despede-se no fundo e sai. Miranda dirige-se a Henrique, enquanto Isabel recebe de Rita a menina e senta-se com ela à porta)
Isabel (a Rita) — Podes ir. (A Iaiá) Vamos ver papai!... Minha filha há de dizer que teve muitas saudades de Papai! Diga sim! Para Mamãe lhe querer bem!...
Miranda (Vendo o papel que Henrique lhe apresenta) — Que papel é este?
Henrique — Leia! (Isabel atende)
Miranda — Está tão escuro já!... (Lendo) "Se me ama.. espere-me ao escurecer... na...
Henrique — Na cabana do jardim!... Ah!... (Aponta)
Miranda — Mas que é isto?
Henrique — Uma carta de amor! Não vê?
Miranda — Onde a achaste?
Henrique — Neste lugar: ela deixou-a cair quando saiu!
Miranda — Ela quem?
Henrique — Não adivinha?... Minha mulher!
Miranda — É impossível, Henrique!
Henrique — O seu
lenço, veja.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.