Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Ele não sabe falar em particularidades. É uma besta, muito rico, e disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre bêbedo. Nem ele cá vem, tu verás... Eu até acho que as coisas correm perfeitamente. – Ouviam-se os passos do abade. – Tem dinheiro, ele tem muito dinheiro, ouviste?
Entrou o abade.
– Só duas palavras. – E leu: – Sua Majestade recebe com muito prazer a carta do Sr. Tenente-Coronel Cerveira Lobo.
– Muito bem – aprovou el-rei. – Hoje à noite, com todos os resguardos que urgem as cautelas.
– Um homem, o Caneta de Braga, o chapeleiro, com uma carta – anunciou Senhorinha – só a entrega em mão própria ao Senhor Abade.
Que entrasse.
O rei e o visconde meteram-se à alcova, simulando receios.
Era uma carta do abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas, de Braga, ofereciam de joelhos a S. M. F., e diziam que todos os seus haveres estavam às ordens de el-rei seu senhor.
E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de seda escarlate. E o Caneta muito pontual: – Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo Senhor Abade.
– Venha daí que eu passo-lhe o recibo.
Os dois saíram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Eles tinham ouvido falar em recibo. O visconde Nunes, esgazeando os olhos, foi apalpar o embrulho, e muito baixinho:
– Arame! Pesa que tem diabo! É ouro! Começa a pingadeira! Vês?
O outro arregalou os olhos e deitou a língua de fora quanto lhe foi possível. Nem parecia um rei!
VII
Às sete da noite, a soirée do monarca de Calvos compunha-se do visconde Nunes, seu secretário privado e brigadeiro de infantaria, do abade capelão-mor de el-rei, de dois reitores, cónegos despachados, e o ex-sargento-mor de Rio Caldo, nomeado capitão-mor de Lanhoso. Estavam todos em pé resistindo à licença de se sentarem. A cadeira de sola estava com o príncipe encostada ao relógio; e, na mesa central, papéis, o tinteiro de chumbo, o Novo Príncipe, de Gama e Castro, a Besta Esfolada e o Punhal dos Corcundas, do bispo Frei Fortunato. Em cima das caixas do milho estava uru meio alqueire com feijões brancos, destinados às tripas, e dois foles vazios que a Senhorinha tencionava encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos foles resbunava um gato enroscado.
Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.
Às oito horas anunciaram-se os adventícios. O barão de Bouro entrou primeiro, a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto numa gravata enchumaçada, preta, de cordãozinho de arame, sem laço, atacando os lóbulos das orelhas, um pouco reentrante na altura dos gorgomilos. Usava óculos de ouro quadrados e uma pêra grisalha; de resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; do cós das calças, cor de gema de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha com o retrato de D. Miguel aos vinte e dois anos, e uma peça de ouro com a mesma real efígie. No peito da camisa, entre as lapelas do colete de veludo cor de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, em miniatura, enigma convencional dos cavaleiros de S. Miguel da Ala, obra patriótica do ourives Novais, pai do poeta Faustino.
Após ele, entrou o Zeferino das Lamelas, muito enfiado, num espasmo, sentindose aluir pelos joelhos. Ia de niza de pano azul com botões amarelos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos do albardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante.
O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco à mão esquiva de Sua Majestade. Por detrás dele, o Zeferino ajoelhara batendo com ambas as rótulas no tabuado. O barão ia falar, quando o rei, reparando no outro, disse:
– Levante-se, homem. Isto aqui não é capela.
O pedreiro teimava, achava-se bem naquela postura que o dispensava de procurar outra.
– Sua Majestade manda-o levantar– disse o visconde Munes.
Ergueu-se, e num ímpeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira, quando o capelão-mor lhe observou que as cartas se entregavam ao secretário.
O barão expôs que não pudera resistir aos pedidos que aquele honrado legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a entrar sozinho à presença de elrei, seu amo. Que era filho de um bravo alferes, o Gaspar das Lamelas, que, em 1838, à frente de 300 homens, atacara a vila de Santo urso, dando vivas a el-rei. Contou a façanha de atravessar o Ave a nado em Janeiro, com a espada nos dentes, e que por causa disso entrevecera e nunca mais se levantou.
– Oh! – interjeccionou compungidamente o monarca. – Eu ignorava esse notável ataque... estava em Roma, sem notícias... Digno homem o meu honrado e bravo... como se chama seu pai?
– Saberá Vossa Majestade que se chama Gaspar Ferreira.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.