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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

entardecer, com lua foram-se as naus distanciando com deuses da terra e com o vozeiro dos indios que das suas fustas amigamente desejavam abonançados mares e propícios ventos. A maruja esteve debruçada ate que de todo se perdeu no mar a hospitaleira e aprazivel terra de Melinde, e, já em mar alto ao luar, os clerigos entoaram a oração da noite, partindo, de todas as naus, no silencio, o mesmo canto religioso.

A INDIA

I

Já se viam chegados junto á terra,

Que desejada já de tantos fora,

Que entre as correntes Indicas se encerra,

E o Ganges, que no seu terreno móra.

Ora sus, gente forte, que na guerra

Quereis levar a palma vencedora,

Já sois chegados, já tendes diante

A terra de riquezas abundante.

( CAMÕES — Os Lusiadas; canto VIL.)

Alongando-se as naus foi-se, a pouco e pouco, resumindo o movimento a bordo— apenas os homens de quarto caminhavam lentamente, de um para outro lado, detendo-se, por vezes, em extasiado silencio, contemplando a lua. Estrellas cadentes, como se fossem presas por um fio luminoso, voavam e morriam, e, no rolar macio da onda, espalhavam-se micantes ardentias.

O grosso da companha repousava. Áquella hora, no castello da popa, junto dos retábulos illuminados, dois homens conversavam baixinho como se receiassem que a brilsa lhes levasse as palavras e o assumpto de que tratavam, com empenhado interesse, era essa India absconsa.

Um d'elles, que era o piloto indiano dizia :

— N'este tempo de inverno raros são os navios que se arriscam a fazer a travessia, com os ventos antipathicos que fazem crescer o marouço. Os que se dão ao commercio da especiaria aguardam os mezes do estio e, com as aguas pacificas com os ventos de monção, facilmente vencem o grande golfo onde não ha um porto a que se arribe em caso de tormenta.

O Gama, que era o interlocutor do indio, não respondeu estendendo a vista perscrutadora pelo céu e pelo mar, demorando-a depois n'um dos retábulos onde a meiga Senhora de Belém sorria com Jesus nos braços. Naquella oração muda o nauta poz toda a sua grande fé e, reconfortado, certo de que, contra elle que alli ia protegido pela Rainha dos céus e Clara Estrella dos mares nada poderiam as ondas aborrascadas nem os ventos marulheiros, quedou-se emquanto o piloto, consultando os astros, ia traçando o rumo n'aquelle mudo e vastissimo páramo de céus d’aguas.

E navegavam sem risco demorando-se, ás vezes, em curtas calmarias, ouvindo o embate da vaga e o rangido monotono das vergas, com as velas colhidas mas, ao primeiro sopro, desferravam-nas, e, aproveitando-o, seguiam scindindo aquelle mar virgem que a maruja olhava supersticiosamente e com medo esperando, a todo o instante, uma surpreza fatal.

Foi para a tarde de um dia azul e frio que os ventos desabridos começaram a uivar com furia — o mar, encarneirado, picavase a mais e mais e uma nuvem, densa e negra, levantando-se no horizonte e enchendo-se foi assoalhando o espaço impellida violentamente pelo vendaval.

A maruja, com o coração minguado, corria á faina manobrando com a pressa que urgia pois o piloto annunciara tormenta. Já o Gama, como que revestindo uma armadura, retomara a sua severidade e os grumetes, lançando olhares timidos ao alto, balbuciavaín rezas procurando as suas nominas debaixo das grossas camisas, junto ao coração.

O céu escurecia como forrado de chumbo e o mar grosso, espumoso, ampollava-se rugindo. A nau de Paulo da Gama que ia á frente arfava e a proa, espadanando as aguas que se oppunham á sua marcha ligeira, subia e mergulhava; e a de Nicoláo Coelho, abalroada pelos vagalhões, bailava como um batel ligeiro, sobre aquellas fortíssimas aguas encrespadas.

Subitamente grossos pingos de chuva bateram no convez como balas, esparrimando-se. Corriam os homens ás aberturas fechando escotilhas e canhoneiras, recolhiam as roupas que arejavam nas driças, cobriam a artilheria com as capas breadas e, os mais devotos, lembrando-se da primeira tormenta que haviam soffrido, cuidavam de segurar fortemente os retabulos para que o mar não os ultrajasse.

Longinquos e profundos trovões rolavam e, de espaço a espaço, o fogo do céu zebrava as nuvens com estrepito, perdendo-se no mar; o vento esfriava esfusiando e a chuva que caío, a principio, com a ameaça de um diluvio, estiou como se as aguas se fossem ajuntando para um assalto decisivo ás naus que iam desabaladamente pelo oceano com a precipitação de perseguidas que fugissem.

Negro, não mais plumbeo, o céu como nue abaixava abafando e as nuvens pejadas passavam tão perto que, a um salto dos navios, o tope dos mastros parecia poder tocal-as.

Se o espectaculo era medonho maior era o panico da maruja que n'elle não via um phenomeno da natureza mas o annuncio de um assombro tragico no qual entrava, como protagonista, o mysterio maligno.

(continua...)

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