Por Aluísio Azevedo (1884)
- Dez mulheres! Virgem Santíssima!
- E o senhor não poderá falar a nenhuma delas sem dar primeiro o sinal competente...
- O sinal?
- Sim, nós aqui chamamos sinal às palavras convencionadas entre duas ou mais pessoas para se encontrarem cá dentro em lugar seguro.
- Mas se eu lhe dissesse como é pouco mais ou menos a que eu procuro, o senhor não poderia?...
- Impossível! Nem mesmo se eu quisesse... não as conheço... Elas chegam em geral cobertas com um grande véu, e às vezes trazem máscara...
- E nunca dão o nome?
- Nunca.
- E os homens que as acompanham?
- Esses, esses têm todos uma alcunha, que só pode ser compreendida por mim, ou por meu patrão ou por algum velho freqüentador da casa.
- Diga algumas dessas alcunhas.
- Para quê? Isso não lhe serviria de nada. Imagine os nomes mais vulgares e os títulos mais comuns, junte-os e terá uma lista completa dos cinco mil homens que freqüentam esta casa.
- Cinco mil?
- Quando menos.
- E todos eles aparecem juntos?
- Não. São até bem poucos os fregueses de toda a noite. Muitos apresentam-se uma vez por semana; outros, duas; outros, três; outros vêm por fruta.* Às vezes a casa se enche; outras não. Depende muito do dia.
* Assim no original. Não conseguimos apurar o sentido da expressão “por fruta”.
- E quais são os dias em que há mais gente?
- Nas vésperas de festa principalmente. E, quando não há festa, nos sábados e domingos.
- Paga-se entrada?
- Não, paga-se apenas o barato.
Nisto, fomos interrompidos por uma campainha elétrica.
- É uma das tais sujeitas que me está chamando... - explicou o homem. - Com sua licença...
- Vá, mas volte.
- Decerto. Venho já.
“Muito bem!....” - disse eu comigo, assim que me vi sozinho. - “Aqui está, onde veio parar minha mulher, se não mente aquela maldita carta.”
Instintivamente levei a mão ao bolso e saquei a denunciadora folha de papel que me conduzira até ali.
A tal frase misteriosa, de que me falara o tipo de barbas loiras, devia estar na parte da carta corroída pelo ácido.
- “E não poder eu adivinhar o que está escrito debaixo desta mancha amarela!...” - pensei. – “Daria uma perna ao diabo para poder saber o que aqui está!...’’
Cheguei-me mais para junto de uma janela que havia a quatro passos e, levando o papel à altura dos olhos, soltei um grito de prazer.
É que, pondo-se a carta contra a luz, podia-se distinguir o que estava escrito debaixo da mancha do ácido.
Foi com grande dificuldade que li o seguinte no meio de outras coisas:
“Quando o homem das barbas loiras te perguntar a quem desejas falar, responde-lhe unicamente...
Nesta ocasião, porém, o maldito cara de gato bateu-me uma palmada nas costas, e eu, com o susto que tive, deixei cair a carta pela janela. - Maldição! “- exclamei.
E, debruçando-me sobre o peitoril, olhei para baixo.
A janela dava para um cortiço e a preciosa carta caíra dentro de uma tina cheia d’água.
XIII
Como principiava a fechar-se a noite, não perdi tempo, disse ao cara de gato que me esperasse um instante e lancei-me de carreira para o andar de baixo.
Entrava-se no grande cortiço por um largo portão quadrado, em cuja parte superior havia uma lanterna enegrecida de fumo e coberta de pó.
À direita e à esquerda um correr de casinhas conduzia* a um coradouro, cheio de gamelas e jiraus de madeira, sobre os quais viam-se algumas peças de roupa, estendidas ou enrodilhadas.
* No original, conduziam.
Uma mulher de enormes ancas, a saia apanhada nos rins, a cabeça em um lenço de alcobaça, os pés à vontade em um grande par de tamancos, os braços arremangados até as axilas, retirava de uma corda, suspensa em toda a extensão da estalagem, a roupa que levara a secar durante o dia.
À proporção que ela ia recolhendo a roupa, lançava-a num vasto cesto de vime, que tinha ao seu lado.
- Ó boa mulherzinha - disse-lhe eu - , vossemecê dá-me licença que eu tire ali daquela tina um papel que me caiu lá de cima?
- Pois não, senhor meu genro! — respondeu ela, voltando-se para mim.- Minha sogra!...
- Em carne e osso!
- A senhora num cortiço?...
- É verdade! E que há nisso de extraordinário? Antes lavar que pedir!
- Sim, mas podia lavar na sua própria casa, como fazia dantes, e não vir meter-se aqui, numa estalagem, num lugar onde se reúne o que há de pior no Rio de Janeiro.
- Ora! deixe-se de bazófias! Faltou-me água em casa e não convinha perder a freguesia. Assim, disse eu comigo: “Pago um cruzado por dia à Mariquinhas Pepé e lavo na estalagem dela a minha roupa.”
- E desde quando está lavando aqui?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.