Por Aluísio Azevedo (1882)
É em uma dessas noitadas de palestras, que os vamos encontrar agora todos juntos em casa da boa velha.
São oito horas. O comendador acabara de entrar, de fitinha ao peito, e corre um por um os circunstantes a cumprimentá-los com enormes frases.
— Oh! A nossa querida Sra. D. Januária, como tem passado, depois da última vez em que tive o prazer de vê-la? perguntava ele à mãe adotiva de Clorinda, apertando-lhe a mão, todo vergado para frente, a bambolear o corpo.
Assim, assim... respondeu aquela, dando um suspiro.
— Ah! os tempos não andam bons! não andam! Ainda ontem, conversando em uma soirée do ministro da fazenda, com a viscondessa da Boa Estrela, disse-me ela que ultimamente tem uma pequena febre todas as noites...
E voltando-se para os outros:
— É verdade! Sabem quem está também incomodado? o barão de
Mesquita! Terça-feira, quando jantávamos juntos... jantar simples, íntimo, semcerimônias! Ah! Ele é muito meu camarada! tanto como o visconde do Bom Retiro! Mas bem! jantávamos juntos e o barão de repente leva a mão ao estômago e empalidece. Coitado! Não lhes digo nada! Só ontem conseguiu deixar a cama!
— Sim? perguntou por condescendência o João Rosa, a quem mais diretamente parecia dirigir-se o comendador.
— Pois não! confirmou o gabarola. Mas o que quer o senhor?!... nós todos estamos sobre um grande pântano! Sim! o Rio de Janeiro é um grande pântano!
Não acha, doutor?
— Está visto! respondeu Roberto.
— Pois bem, quais são as medidas empregadas para sanar o mal? Nenhuma! Projetos não faltam, mas quanto à realização... Encarregasse-me eu de providenciar sobre isso, e viriam os resultados! Havia de arriscar bom dinheiro, havia! Mas juro-lhe que o trabalho apareceria! Oh! nós aqui não temos iniciativa de espécie alguma!... Uma vez, em Paris, quando visitei o Thiers, disse-me ele que o Brasil estava fadado a representar um papel importantíssimo nos séculos futuros; eu lhe respondi, batendo-lhe no ombro: 'Meu bom Sr. Thiers, não julgue o Brasil pelos relatórios oficiais e pelas descrições européias. O Brasil..."
Mas foi nisto interrompido por dois rapazes, que acabavam de entrar na sala.
— Ah! disse D. Januária, reconhecendo um deles; sempre veio? E acrescentou para os outros: E o Sr. Duque Estrada, filho de uma das famílias que me honram com a sua estima.
— E parente do senador?...
— Não, senhor, respondeu o rapaz; não temos parentesco algum.
E chegando-se mais perto da dona da casa, disse-lhe, indicando o companheiro:
— Tenho a honra de apresentar-lhe o meu distinto amigo Adelino Fontoura, um belo talento!
— Oh! disse o Fontoura, vergando-se reverentemente, dentro do seu croisé preto.
E, depois de uma troca geral de cumprimentos, os dois recém-chegados foram colocar-se no vão de uma janela.
— Muito se parece este rapaz com o filho de um lorde que conheci nos salões da princesa Rattazi, disse o comendador, mostrando o Duque Estrada.
Era este um moço magro, espigado, barba loura partida no queixo; vestia-se à moda, mas com simplicidade, e tinha na fisionomia o ar condescendente e atencioso dos homens educados no seio da família.
O outro era de menor estatura, feições mais varonis, mais reforçado de membros, um pouco áspero de rosto, cabeça grande, achatada no crânio e cabelos pretos muito curtos e lustrosos.
— Aquela é que é a tal menina do célebre casamento?... perguntou Fontoura discretamente ao companheiro, indicando Clorinda, que em um dos ângulos da sala conversava animadamente com o João Rosa.
— É, respondeu o outro.
— Encantadora! acrescentou o Adelino. E aquele esquisito do Urbano Duarte havia dito, no seu folhetim de domingo, que ela era feia!...
— Ora!... desdenhou o Estrada, que havia chegado o ouvido perto da boca do amigo; tu bem sabes quem é Urbano para julgar mulheres! O Augusto 0ff, por exemplo, juro-te que é de minha opinião.
— Mas então está ela já de namoro com aquele sujeito?...
— Não sei.
— Pelo menos conversam muito animadamente! O que são as mulheres...
disse o Adelino, sacudindo filosoficamente a cabeça! Ainda não há quatro meses que ia casar com o tal Gregório, e já parece hoje resolvida a aceitar outro. Quem é aquele sujeito, conheces?
— Aquele que conversa com ela?
— Sim.
— Ah! de vista. E um tipo aí do comércio; creio que empregado em uma casa de café. Parece estimado.
— Acho-o com cara de tolo!
— Dizem que não, que é um sujeito muito fino para negócios.
Clorinda levantou-se e foi para o piano.
— Já me tardava! resmungou Adelino, quando ouviu as primeiras notas de música.
Na ocasião em que os dois companheiros se retiraram, um deles fez notar ao outro a insistência com que João Rosa olhava para Clorinda.
— Fiem-se em mulheres!... resmungou Adelino.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.