Por Aluísio Azevedo (1884)
— Mas a questão é que, se eu me for embora, o Roberto será muito capaz de...
— Pois o Roberto que se vá também! Está despedido! Sou eu que o ponho na rua!
Roberto, que escutava tudo isso atrás da porta, entrou por sua vez no quarto e correu ao patrão, implorando-lhe piedade. — Que seria uma revoltante injustiça pô-lo na rua! Ele! que cumpria tão bem com os seus deveres! Ele! que, por amor dos amos, era capaz de ir às profundas do inferno! — Oh! Uma coisa assim até bradava aos céus!
E cada um dos criados agarrou-se a um dos braços do Borges, e principiaram ambos a choramingar, implorando-lhe compaixão por tudo que ele mais amasse nesta vida.
— Olhem que vocês me estão fazendo um berreiro nos ouvidos! bradou o amo, querendo arrancar-se daquela posição.
— Arre! Pois tenho também de aturar este par de galhetas?! Vão para o diabo! Deixem-me! Deixem-me! Súcia de doidos!
E o Borges de um salto agarrou o chapéu, enterrou-o na cabeça, e ganhou em três pernadas a porta da rua.
— Safa! Safa! dizia ele a marche marche pela calçada. — Que inferno! Isto lá é vida!
E assim andou até às dez horas pela cidade; tonto, sem destino. furioso, a abalroar com todo o mundo, a dar encontrões nas quitandeiras, e meter os pés no que encontrava, a praguejar, a promover barulhos.
Num restaurante, onde entrou para almoçar, à primeira réplica do servente, atirou-lhe com o sifão e fez voar a mesa diante de si com um soco. Um sujeito, que a recebeu pelas pernas, desafrontou-se, arremetendo contra o Borges o prato que tinha mais à mão.
Levantou-se grande desordem, e a coisa teria acabado na polícia, se o marido de Filomena, depois de lançar uma nota de cem mil réis ao dono do hotel, não distribuísse vários ponta-pés para os lados e não ganhasse a rua, levando na sua frente todos os obstáculos que se lhe antepunham.
Chegou à casa ao meio-dia, esbaforido, aniquilado, sem querer a presença de ninguém, disposto a fechar-se no quarto e deixar que aquela maldita vida girasse em torno dele, como bem entendesse.
Mas o aspecto revolucionado de seu "lar doméstico" o surpreendeu logo à entrada. Tudo estava em reviravolta. Cecília e Roberto arrastavam malas, despejavam a roupa dos gavetões da cômoda, empacotavam objetos de uso, acumulavam trouxas.
— Que é isto? perguntou o Borges.
— A senhora deu-nos ordem de preparar o necessário para uma viagem...
— Viagem de quem?!
— Nossa não é, com certeza, porque nós já estamos despedidos — Quem vai viajar?! Desembuchem, com os diabos!
— A senhora, naturalmente; pelo menos esta roupa é dela.
Borges subiu ao segundo andar; encontrou a mulher muito tranqüila, sentada no divã, a ler.
— A senhora tenha a bondade de explicar que desordem é aquela lá em baixo? Que significam aquelas malas, aqueles preparativos de viagem?!
— O que vê. Trata-se justamente de uma viagem.
— Viagem de quem?
— Minha. Vou, uma vez que o senhor não quis ir. Juntos é que não ficaremos por coisa alguma! Não me quero arriscar a uma segunda agressão! Não posso ficar numa casa, onde não tenho a menor garantia, onde nem o meu quarto de dormir é respeitado!
— Mas a senhora esquece-se de que é minha esposa? A senhora não vê logo que eu não a deixo sair assim, sem mais nem menos?...
Filomena ergueu-se em silêncio, sacudiu os ombros e retirou-se da sala. O Borges acompanhou-a.
— Filomena! disse ele.
— Que é?
— A senhora não tencionará acabar com essas coisas por uma vez?...
— Que coisas?
— Esses caprichos! Então está sempre resolvida a fazer a viagem?
— Estou.
— Pois nesse caso irei também! Acompanhá-la-ei ainda que seja para o inferno. Roberto! ó Roberto do diabo! Corre! arranja-me uma mala!
— Bem! Nesse caso não irei, disse Filomena, fechando o livro, que tinha entre as mãos.
— É então um propósito firme de contrariar-me em tudo?! perguntou o marido, trêmulo de raiva.
— O senhor é que está nesse propósito! Parece que anda inventando meios e modos de mortificar-me! É bastante que eu mostre gosto em qualquer coisa para o senhor fazer logo justamente o contrário! Isso prova que o senhor não me ama! Que o senhor não deseja ter uma esposa; deseja éter uma mulher às suas ordens! Animal! Bruto! Estúpido!
E, possuída de um violento sobressalto de nervos, atirou-se de bruços no divã a soluçar, a morder-se.
Borges correu para junto dela; tomou-a nos braços, fê-la encostar a cabeça no seu colo, e, com muita ternura, os olhos úmidos, começou a acarinhá-la, a dizerlhe todas as meiguices que lhe inspirava o amor.
— Oh! Mas para que havia de se mortificar daquela forma?... Para que se maltratar assim? para que enodoar com os dentes aquelas mãozinhas tão formosas?... O fato da véspera não justificava semelhante desespero! Se algum dos dois devia estar ressentido, era ele de certo, porque...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.