Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Compunha-se do vasto armazém ao rés-do-chão, e mais dois andares; no primeiro dos quais estava o escritório e à noite aboletavam-se os caixeiros, e no segundo morava o negociante com a mulher — D. Maria Hortênsia, e uma cunhada- D. Carlotinha.

A mesa era no andar de cima .Faziam-se duas : uma para o dono da casa ,a família, o guarda-livros e hóspedes, se os havia, o que era freqüente ;e a outra só para os caixeiros, que subiam ao número de cinco ou seis.

Apesar de inteligente e de brasileiro, Campos nunca logrou espantar de sua casa o ar triste que a ensombrecia. À mesa, quando raramente se palestrava, era sempre com muita reserva ;não havia risadas expansivas, nem livres exclamações de alegria. Os hóspedes, pobre gente de província, faziam uma cerimônia espessa ; o guarda-livros poucas vezes arriscava a sua anedota e, só se determinava a isso, tendo de antemão escolhido um assunto discreto e conveniente.

Campos não apertava a bolsa em questões de comida: queria mesa farta ;quatro pratos ao almoço, café e leite à discrição ; ao jantar seis , sopa e vinho .Os caixeiros falavam com orgulho dessa generosidade e faziam em geral boa ausência do patrão, que, entretanto, fora sempre de uma sobriedade rara: comia pouco, bebia ainda menos e não conhecia os vícios senão de nome.

Aos domingos, e às vezes mesmo em dias de semana, aparecia para o jantar um ou outro estudante comprovinciano do Campos ou algum freguês do interior, que estivesse de passagem na Corte e a quem lhe convinha agradar.

Luís Campos era homem ativo, caprichoso no serviço de que ser encarregava e extremamente suscetível em pontos de honra; quer se tratasse de sua individualidade privada, que de sua responsabilidade comercial.

Não descia nunca ao armazém, ou simplesmente ao escritório, sem estar bem limpo e preparado. Caprichava no asseio do corpo :as unhas, os cabelos e os dentes mereciam-lhe bons desvelos e atenções.

Entre os companheiros, passava por homem de vistas largas e espírito adiantado ; nos dias de descanso dava-se todo ao Figuier, ao Flammarion e ao Júlio Verne, outras vezes, poucas, atirava-se à literatura; mas os verdadeiros mestres aborreciam-no e entreturbavam-no com os rigorismos da forma.

— È um bom tipo! diziam os estudantes à volta do jantar, e seguinte domingo lá estavam de novo. O “bom tipo” tratava-os muito bem, levava-os com a família para a sala, oferecia-lhes charutos, cerveja, e nunca exigia que lhe restituíssem os livros que lhes emprestava.

Quanto à sua vida comercial, pouco se tem a dizer. Até aos dezoito anos, Campos estivera no Maranhão, para onde fora em pequeno de sua província natal, o Ceará. No Maranhão fez os primeiros estudos e deu os primeiros passos no comércio, pela mão de um velho negociante, amigo de seu pai.

Esse velho foi seu protetor e o seu guia; só com a morte dele se passou o Campos para o Rio de Janeiro, onde, graças ainda a certas relações da família de seu benfeitor, consegui arranjar-se logo, como ajudante de guarda-livros, em uma casa de comissões. Desta saiu para outra, melhorando sempre de fortuna, até que afinal o admitiram, como gerente, no armazém de uns tais Garcia, Costa & Cia.

O Garcia morreu, Campos passou a ser interessado na casa; depois morreu o Costa, e Campos chamou um sócio de fora, um capitalista, e ficou sendo a principal figura da firma.

Por esse tempo encontrou D. Maria Hortênsia, menina de boa família, sofrivelmente ajuizada e com dote. Pouco levou a pedi-la e a casar-se.

Nunca se arrependera de semelhante passo. Hortênsia saíra uma excelente dona-de-casa, muito arranjadinha, muito amiga de poupar, muito presa aos interesses de seu marido, e limpa, “limpa ,que fazia gosto!”

O segundo andar vivia, pois, num brinco; nem um escarro seco no chão. Os móveis luziam, como se tivessem chegado na véspera da casa do marceneiro ;as roupas da cama eram de uma brancura fresca e cheirosa ;não havia teias de aranha nos tetos ou nos candeeiros e os globos de vidro não apresentavam sequer a nódoa de uma mosca.

E Campos sentia-se bem no meio dessa ordem, desse método. Procurava todos os dias enriquecer os trens de sua casa, já comprando umas jardineiras, que lhe chamaram a atenção em tal rua; já trazendo uma estatueta, um quadro, uma nova máquina de fazer sorvetes, ou um sistema aperfeiçoado para esta ou aquela utilidade doméstica.

Gostava que em sua casa houvesse um pouco de tudo. Não aparecia por aí qualquer novidade, qualquer novo aparelho de bater ovos, gelar vinho, regar plantas, que o Campos não fosse um dos primeiros a experimentar.

A mulher, às vezes, já se ria, quando ele entrava da rua abraçado a um embrulho.

— Que foi que se inventou?...perguntava com uma pontinha de mofa.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →