Por Martins Pena (1845)
FABIANA – Psiu, psiu, venha cá!
EDUARDO – Estou muito ocupado. Vem voltar a música.
FABIANA, chegando-se para ele e tomando-o pela mão – Fale primeiro comigo. Tenho muito que lhe dizer.
EDUARDO – Pois depressa, que me não quero esquecer da passagem que tanto me custou a estudar. Que música, que trêmolo! Grande Bériot!
FABIANA – Deixemo-nos agora de Berliós e tremidos, e ouça-me.
EDUARDO – Espere, espere; quero que aplauda e goze um momento do que é bom e sublime; assentem-se. (Obriga-as a sentarem-se e toca rabeca, tirando sons extravagantes, imitando o Trêmolo.)
FABIANA, levantando-se enquanto ele toca – E então? Pior, pior! Não deixará esta infernal rabeca? Deixe, homem! Ai, ai!
OLAIA, ao mesmo tempo – Eduardo, Eduardo, deixa-te agora disso. Não vês que a mamãe se aflige? Larga o arco. (Pega na mão do arco e forceja para o tirar.)
FABIANA – Larga a rabeca! Larga a rabeca! (Pegando na rabeca e forcejando.)
EDUARDO, resistindo e tocando entusiasmado – Deixem-me, deixem-me acabar, mulheres, que a inspiração me arrebata....... Ah... ah... (Dá com o braço do arco nos peito de Olaia e com o da rabeca nos queixos de Fabiana, isto tocando com furor.)
OLAIA – Ai, meu estômago!
FABIANA, ao mesmo tempo – Ai, meus queixos!
EDUARDO, tocando sempre com entusiasmo – Sublime! Sublime! Bravo! Bravo!
FABIANA, batendo o pé, raivosa – Irra!
EDUARDO, deixando de tocar – Acabou-se. Agora pode falar.
FABIANA – Pois agora ouvirá, que estou cheia até aqui... Decididamente já não o posso nem quero aturar.
OLAIA – Minha mãe!
EDUARDO – Não?
FABIANA – Não e não, senhor. Há um ano que o senhor casou-se com minha filha e ainda está às minhas costas. A carga já pesa! Em vez de gastar as horas tocando rabeca, procure um emprego, alugue uma casa e, fora daqui com sua mulher! Já não posso com as intrigas e desavenças em que vivo, depois que moramos juntos. É um inferno! Procure casa, procure casa... Procure casa!
EDUARDO – Agora, deixe-me também falar.... Recorda-se do que lhe dizia eu quando se tratou do meu casamento com sua filha?
OLAIA – Eduardo!...
EDUARDO – Não se recorda?
FABIANA – Não me recordo de nada... Procure casa. Procure casa!
EDUARDO – Sempre é bom que se recorde... Dizia eu que não podia casar-me por faltarem-me os meios de pôr casa e sustentar família. E o que respondeu-me a senhora a esta objeção?
FABIANA – Não sei.
EDUARDO – Pois eu lhe digo: respondeu-me que isso não fosse a dúvida, que em quanto à casa podíamos ficar aqui morando juntos, e que aonde comiam duas pessoas, bem podiam comer quatro. Enfim, aplainou todas as dificuldades... Mas então queria a senhora pilhar-me para marido de sua filha... Tudo se facilitou; tratava-me nas palmas das mãos. Agora que me pilhou feito marido, grita: Procure casa! Procure casa! Mas eu agora é que não estou para aturá-la; não saio daqui. (Assenta-se com
resolução numa cadeira e toca rabeca com raiva.)
FABIANA, indo para ele – Desavergonhado! Malcriado!
OLAIA, no meio deles – Minha mãe!
FABIANA – Deixa-me arrancar os olhos a este traste!
OLAIA – Tenha prudência! Eduardo, vai-te embora.
EDUARDO levanta-se enfurecido, bate o pé e grita – Irra! (Fabiana e Olaia recuam, espavoridas. Indo para Fabiana:) Bruxa! Vampiro! Sanguessuga da minha paciência! Ora, quem diabo havia dizer-me que esta velha se tornaria assim!
FABIANA – Velha, maroto, velha?
EDUARDO – Antes de pilhar-me para marido da filha, eram tudo mimos e carinhos. (Arremedando:) Sr. Eduardinho, o senhor é muito bom... Há de ser um excelente marido... Feliz daquela que o gozar... ditosa mãe que o tiver por genro... Agora escoiceia-me, e descompõe... Ah, mães, mães, espertalhonas! Que lamúrias para empurrarem as filhas! Estas mães são mesmo umas ratoeiras... Ah, se eu te conhecesse!...
FABIANA – Se eu também te conhecesse, havia de dar-te um...
EDUARDO – Quer dançar a polca?
FABIANA, desesperada – Olhe que me perco...
OLAIA – Minha mãe...
EDUARDO vai saindo, cantando e dançando a polca – Tra la la la, ri la ra ta... (Etc., etc.)
FABIANA, querendo ir a ele e retida por Olaia – Espera, maluco de uma figa...
OLAIA – Minha mãe, tranqüilize-se, não faça caso.
FABIANA – Que te hei de fazer dançar o trêmolo e a polca com os olhos fora da cara!
EDUARDO, chegando à porta – Olaia, vem voltar a música...
FABIANA, retendo-a – Não quero que vá lá...
EDUARDO, gritando – Vem voltar a música...
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026