Por Martins Pena (1848)
Coitada da que se humilha! Então são eles leões. O meu homem será sendeiro toda sua vida... E se hás de ter o trabalho de ensinares a esses animais, é melhor que te não cases.
LUÍSA – Isso é bom de se dizer...
EUFRÁSIA – E de se fazer. Vou acabar de me vestir. (Sai.)
CENA III
LUÍSA e depois JORGE.
LUÍSA, só – Pobre Jorge; com quem te fostes casar! Como esta mulher te faz infeliz! Pedreiro-livre!... Quem o dissera! (Entra Jorge vestido com opa verde de irmão das almas; traz na mão uma bacia de prata com dinheiro, ovos e bananas. Logo que entra, põe a bacia sobre a mesa.)
JORGE, entrando – Adeus, mana Luísa.
LUÍSA – Já de volta?
JORGE – A colheita hoje é boa. É preciso esvaziar a salva. (Faz o que diz.) Guarda metade deste dinheiro antes que minha mulher o veja, que tudo é pouco para ela; e faze-me destes ovos uma fritada e dá estas bananas ao macaco.
LUÍSA – Tenho tanta repugnância de servir-me deste dinheiro...
JORGE – Por quê?
LUÍSA – Dinheiro de esmolas que pedes para as almas...
JORGE – E então o que tem isso? É verdade que peço para as almas, mas nós também não temos alma? Negar que a temos é ir contra a religião, e além disso, já lá deixei dois cruzados para se dizer missas para as outras almas. É bem que todas se salvem.
LUÍSA – Duvido que assim a tua se salve.
JORGE – Deixa-te de asneiras! Pois pensas que por alguns miseráveis dois vinténs, que já foram quatro, (pega em uma moeda de dois vinténs:) – olha, aqui está o carimbo... – um pai de família vá para o inferno? Ora! Supõe que amanhã afincam outro carimbo deste lado. Não desaparecem os dois vinténs e eu também não fico logrado? Nada, antes que me logrem, logro eu. E demais, tirar esmolas para almas e para os santos é um dos melhores e mais cômodos ofícios que eu conheço. Os santos sempre são credores que não falam... Tenho seis opas para os seis dias da semana; aqui as tenho. (Vai ao armário e tira seis opas.) No domingo descanso. Preferi tê-las minhas – é mais seguro; não dou satisfação a tesoureiro nenhum. Às segundas-feiras visto esta verde que tenho no corpo; às terças, esta roxa; às quartas, esta branca; às quintas, esta encarnada; às sextas, esta roxa e branca e aos sábados esta azul.
LUÍSA – E não entregas dinheiro nenhum para os santos?
JORGE – Nada, o santo destas opas sou eu. Não tenho descanso, mas também o lucro não é mau.
LUISA – O lucro... Aquele pobre velho que morava defronte do paredão da Glória também pedia esmolas para os santos, e morreu à míngua.
JORGE – Minha rica, o fazer as coisas não é nada; o sabê-las fazer é que é tudo. O carola experiente deve conhecer as ruas por que anda, as casas em que entra e as portas a que bate. Ruas há em que se não pilha um real – essas são as da gente rica, civilizada e de bom-tom, que, ou nos conhecem, ou pouco se lhe dá que os santos se alumiem com velas de cera ou de sebo, ou mesmo que estejam às escuras. Enfim, pessoas que pensam que quando se tem dinheiro não se precisa de religião. Por essas ruas não passo eu. Falem-me dos becos aonde vive a gente pobre, das casas de rótulas, das quitandeiras; aí sim, é que a pipineira é grossa! (Vai guardar as opas.) Tenho aprendido à minha custa!
LUÍSA, sorrindo-se – À custa dos tolos, deves dizer.
JORGE – E quem os manda serem tolos? Mas, ah, neste mundo nem tudo são rosas. Eu vivia tão bem e tão feliz, e por desconto dos meus pecados dei a mais reverente das cabeçadas!
LUÍSA – Qual cabeçada?
JORGE – O casar-me. Ah, minha filha, o casamento é uma cabeçada que deixa o homem atordoado por toda a vida, se o não mata. Se eu soubesse...
LUÍSA – Agora é tarde o arrependimento; queixa-te de ti.
JORGE – Que queres? Um dia mete-se o diabo nas tripas de um homem e ei-lo casado. Ainda alguns são felizes, mas eu fui mesmo desgraçadíssimo! Esbarrei-me de focinhos! Encontrei com uma mulher linguaruda, preguiçosa, desavergonhada e atrevida... E para maior infelicidade, vim viver com minha sogra, que é um demônio; leva todo o dia a atiçar a filha contra mim. Vivo num tormento.
LUÍSA – Eu bem o vejo.
JORGE – Quando a roda principia a desandar, é assim. Dois meses depois de eu estar casado, morreu nossa mãe e tu te vistes obrigada a vires para minha companhia, para aturares estas duas víboras. Ah, suportar uma mulher é um castigo, mas aturar também uma sogra é... nem eu sei o que seja!... É uma injustiça que Deus nos faz. E quando elas têm um conselheiro e compadre da laia do nosso vizinho Sousa... Isso...
(Dá estalos com os dedos.)
LUÍSA – Dizes bem, Jorge, esse nosso vizinho é uma das causas do estado desgraçado em que vives com tua mulher, pelos conselhos que lhe dá.
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.