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#Contos#Literatura Brasileira

Luís Soares

Por Machado de Assis (1870)

Quando acordou mandou dizer ao Pires que viesse falar-lhe imediatamente. Daí a uma hora parava um carro à porta: era o Pires que chegava, mas acompanhado de uma rapariga morena que respondia ao nome de Vitória. Entraram os dous pela sala de Soares com a franqueza e o estrépito naturais entre pessoas de família. 

- Não está doente? perguntou Vitória ao dono da casa. 

- Não, respondeu este; mas por que veio você? 

- É boa! disse José Pires; veio porque é a minha xícara inseparável... Querias falar-me em particular?

- Queria. 

- Pois falemos aí em qualquer canto; Vitória fica na sala vendo os álbuns. 

- Nada, interrompeu a moça; nesse caso vou-me embora. É melhor; só imponho uma condição: é que ambos hão de ir depois lá para casa; temos ceata. 

- Valeu! disse Pires. 

Vitória saiu; os dous rapazes ficaram sós. 

Pires era o tipo do bisbilhoteiro e leviano. Em lhe cheirando novidade preparava-se para instruir-se de tudo. Lisonjeava-o a confiança de Soares, e adivinhava que o rapaz ia comunicar-lhe alguma cousa importante. Para isso assumiu um ar condigno com a situação. Sentou-se comodamente em uma cadeira de braços; pôs o castão da bengala na boca e começou o ataque com estas palavras: 

- Estamos sós; que me queres? 

Soares confiou-lhe tudo; leu-lhe a carta do banqueiro; mostrou-lhe em toda a nudez a sua miséria. Disse-lhe que naquela situação não via solução possível, e confessou ingenuamente que a idéia do suicídio o havia alimentado durante longas horas. 

- Um suicídio! exclamou Pires; estás doudo. 

- Doudo! respondeu Soares; entretanto não vejo outra saída neste beco. Demais, é apenas meio suicídio, porque a pobreza já é meia morte. 

- Convenho que a pobreza não é cousa agradável, e até acho... 

Pires interrompeu-se; uma idéia súbita atravessara-lhe o espírito: a idéia de que Soares acabasse a conferência por pedir-lhe dinheiro. Pires tinha um preceito na sua vida: era não emprestar dinheiro aos amigos. Não se empresta sangue, dizia ele. 

Soares não reparou na frase cortada do amigo, e disse: 

- Viver pobre depois de ter sido rico... é impossível. 

- Nesse caso que me queres tu? perguntou Pires, a quem pareceu que era bom atacar o touro de frente. 

- Um conselho.

- Inútil conselho, pois que já tens uma idéia fixa. 

- Talvez. Entretanto confesso que não se deixa a vida com facilidade, e má ou boa, sempre custa morrer. Por outro lado, ostentar a minha miséria diante das pessoas que me viram rico é uma humilhação que eu não aceito. Que farias tu no meu lugar? 

- Homem, respondeu Pires, há muitos meios... 

- Venha um. 

- Primeiro meio. Vai para Nova Iorque e procura uma fortuna. - Não me convém; nesse caso fico no Rio de Janeiro. 

- Segundo meio. Arranja um casamento rico. 

- É bom de dizer. Onde está esse casamento? 

- Procura. Não tens uma prima que gosta de ti? 

- Creio que já não gosta; e demais não é rica; tem apenas trinta contos; despesa de um ano. 

- É um bom princípio de vida. 

- Nada; outro meio. 

- Terceiro meio, e o melhor. Vai à casa de teu tio, angaria-lhe a estima, dize que estás arrependido da vida passada, aceita um emprego, enfim vê se te constituis seu herdeiro universal. 

Soares não respondeu; a idéia pareceu-lhe boa. 

- Aposto que te agrada o terceiro meio? perguntou Pires rindo. 

- Não é mau. Aceito; e bem sei que é difícil e demorado; mas eu não tenho muitos à escolha. 

- Ainda bem, disse Pires levantando-se. Agora o que se quer é algum juízo. Há de custar-te o sacrifício, mas lembra-te que é o meio único de teres dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio é um homem achacado de moléstias; qualquer dia bate a bota. Aproveita o tempo. E agora vamos à ceia da Vitória. 

- Não vou, disse Soares; quero acostumar-me desde já a viver vida nova.

- Bem; adeus. 

- Olha; confiei-te isto a ti só; guarda-me segredo. 

- Sou um túmulo, respondeu Pires descendo a escada. 

Mas no dia seguinte já os rapazes e raparigas sabiam que Soares ia fazer-se anacoreta... por não ter dinheiro nenhum. O próprio Soares reconheceu isto no rosto dos amigos. Todos pareciam dizer-lhe: É pena! que pândego vamos nós perder! 

Pires nunca mais o visitou. 


Capítulo II 




(continua...)

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