Por José de Alencar (1857)
EDUARDO - Pedro!... Moleque!... O brejeiro anda passeando, naturalmente! Pedro!
CARLOTINHA (entrando) - O que quer, mano? Pedro saiu.
EDUARDO - Onde foi?
CARLOTINHA - Não sei.
EDUARDO - Por que o deixaste sair?
CARLOTINHA - Ora! Há quem possa com aquele seu moleque? É um azougue; nem à mamãe tem respeito.
EDUARDO - Realmente é insuportável; já não o posso aturar.
CENA III
Os mesmos, PEDRO
PEDRO - Senhor chamou?
EDUARDO - Onde andava?
PEDRO - Fui ali na loja da esquina.
EDUARDO - Fazer o quê? Quem lhe mandou lá?
CARLOTINHA - Foi vadiar; é só o que ele faz.
PEDRO - Não, nhanhã; fui comprar soldadinho de chumbo.
EDUARDO - Ah! O senhor ainda brinca com soldados de chumbo... Corra, vá chamar-me um tílburi na praça; já, de um pulo.
PEDRO - Sim, senhor.
CENA IV
EDUARDO, CARLOTINHA
CARLOTINHA - Onde vai, mano?
EDUARDO - Vou ao Catete ver um doente; volto já.
CARLOTINHA - Eu queria falar-lhe.
EDUARDO - Quando voltar, menina.
CARLOTINHA - E por que não agora?
EDUARDO - Tenho pressa, não posso esperar. Queres ir hoje ao Teatro Lírico?
CARLOTINHA - Não, não estou disposta.
EDUARDO - Pois representa-se uma ópera bonita. (Enche a carteira de charutos.) Canta a Charton. Há muito tempo que não vamos ao teatro.
CARLOTINHA - É verdade; mas quem nos acompanha é você, e seus trabalhos, sua vida ocupada... Depois, mano, noto que anda triste.
EDUARDO - Triste? Não, é meu gênio; sou naturalmente. seco; gosto pouco de divertimentos.
CARLOTINHA - Mas houve um tempo em que não era assim; brincávamos, passávamos as noites a tocar piano e a conversar; você, Henriqueta e eu. Lembra-se?
EDUARDO - Se me lembro!... Estava formando há pouco, não tinha clínica. Hoje falta-me o tempo para as distrações.
CENA V
Os mesmos, PEDRO
PEDRO - Está aí o tílburi, sim, senhor; carro novo, cavalinho bom.
EDUARDO - Agora veja se se larga outra vez. Quero tudo isto arrumado, no seu lugar; não me toque nos meus livros; escove esta roupa. Respeite-me os charutos. Quem abriu aquela janela?
CARLOTINHA - Fui eu, mano. Fiz mal?
EDUARDO - Não gosto que esteja aberta, o vento leva-me os papéis. (A PEDRO.) Fecha!
CARLOTINHA - Você outrora gostava de passar as tardes ali, fumando ou lendo.
EDUARDO - Até logo, Carlotinha. Moleque, não saia.
CARLOTINHA - Ouça, mano!... Não quer ver Henriqueta?
EDUARDO - Ah!... Há muito tempo não te visitava!
CARLOTINHA - Por isso mesmo, venha falar-lhe.
EDUARDO - Não; já me demorei mais do que pretendia.
CARLOTINHA - Escute!
CENA VI
PEDRO, CARLOTINHA
PEDRO - Sr. moço Eduardo pensa que a gente tem perna de pau e não precisa andar!
CARLOTINHA - Fecha aquela porta!
PEDRO - Então, nhanhã, V.Mce. não recebe aquele bilhete, não?
CARLOTINHA - Moleque! Tu estás muito atrevido!...
PEDRO - Pois olhe, nhanhã; o moço é bonito, petimetre mesmo da moda!... Mais do que o Sr. moço Eduardo. Xi!... Nem tem comparação!
CARLOTINHA - Não o conheço!
PEDRO - Pois ele conhece nhanhã; passa aqui todo o dia. Chapéu branco de castor, deste de aba revirada; chapéu fino; custa caro! Sobrecasaca assim meio recortada, que tem um nome francês; calça justinha na perna; bota do Dias; bengalinha desse bicho, que se chama unicorne. Se nhanhã chegar na janela depois do almoço há de ver ele passar, só gingando: Tchá, tchá, tchá... Hum!... Moço bonito mesmo!
CARLOTINHA - Melhor para ele; não faltará a quem namore.
PEDRO - Não falta, não; mas ele só gosta de nhanhã. Quando passa, nhanhã não vê; mas eu, cá de baixo, estou só espreitando. Vai olhando para trás, de pescocinho torto! Porém nhanhã não faz caso dele!
CARLOTINHA - É um desfrutável! Está sempre a torcer o bigode!
PEDRO - É da moda, nhanhã! Aquele bigodinho, assim enroscado, onde nhanhã vê, é um anzol; anda só pescando coração de moça.
CARLOTINHA - Moleque, se tu me falares mais em semelhante coisa, conto a teu senhor. Olha lá!
PEDRO - Está bom, nhanhã; não precisa se zangar. Eu digo ao moço que nhanhã não gosta dele, que ele tem uma cara de frasquinho de cheiro...
CARLOTINHA - Dize o que tu quiseres, contanto que não me contes mais histórias.
PEDRO - Mas agora como há de ser!... Ele me deu dez mil-réis.
CARLOTINHA - Para quê?
PEDRO - Para entregar bilhete a nhanhã. (Tira o bilhete.) Bilhetinho cheiroso; papel todo bordado!
CARLOTINHA - Ah! se mano soubesse!
PEDRO - Ele é amigo de Sr. moço Eduardo.
CARLOTINHA - Nunca vem aqui!
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.