Por Camilo Castelo Branco (1882)
Não é preciso ser a gente extraordinariamente romântica para interessar-se, averiguar, querer notícias das duas pessoas que têm nestas linhas uma história qualquer, mais ou menos vulgar. Ocorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flor dos anos. Além disso, na margem superior do frontispício do volume, está escrito o nome do possuidor – José Dias de Vilalva, e a carta é dirigida a um José. Concluí ser o cunhado da viúva quem recebera a carta.
Voltei a casa da Srª Joaquina, muito açodado, como um antropologista que procura uni dente pré-histórico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando morreu. – Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrera pela Maria da Fonte.
– Pois ele amou a Maria da Fonte? – perguntei com ardente curiosidade histórica, para esclarecer a minha pátria com um episódio romanesco das suas guerras civis. Ela sorriu e respondeu:
– Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por aí andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papelada dos escrivães, sabe vossemecê? Acho que foi então ou por perto. – E ajuntou: – Ele gostava aí muito de uma moça, isso é verdade. Era a Marta...
– Marta? – disse eu com a satisfação de ver confirmada a assinatura do bilhete.
– Vossemecê conhece-a?
_— Não conheço.
– É a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.
– Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
– Não que ela nunca sai do quarto; está assim a modos de atolambada há muito tempo. Credo! há muitos anos que a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem mais rico destes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e
pão de milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a pé, e mete ao bolso umas côdeas de boroa e quatro maçãs para não ir è estalagem.
Interrompi com interesse de artista:
– Disse-me que ela endoidecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?
– Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito por mor dela. Esses casos há muita gente que lhos conte. Há por aí muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao Senhor Reitor de Caldelas que andou com ele nos estudos e sabe todas essas trapalhadas. – E num tom de notícia festival: – Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lho mando assim que estiver criado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
– Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa crítica de uma dama inglesa à nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ela, lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excelente senhora!
*
Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldelas na feira de Santo urso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabular-se com ele uma indagação de curiosidades sentimentais.
Fazia respeitável a sua batina sem nódoas o padre Osório. Parece que também as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve mocidade, nem as ambições que suprem os doces afectos do coração mutilados pelo cálculo ou congelados pelo temperamento. Há trinta e dois anos que pastoreia uma das mais pobres freguesias do arcebispado. Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores. A retórica é a arte de falar bem; mas os vícios são a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.
Como pregava gratuitamente, o vigário de Caldelas era chamado por todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os panegíricos dos santos mais ou menos hipotéticos, pediam-lhe que pregasse da cura milagrosa de umas maleitas ou de um leicenço – casos que a pobre Natureza e o periódico chamado Esculápio só de per si não poderiam explicar.
O vigário subia ao púlpito e improvisava coisas de grande engenho em linguagem muito singela. Afirmava que Deus era tão bom, tão previdente, que dera à condição enfermiça do homem forças vitais, sobresselentes que resistiam à destruição; e que a Natureza, grande milagre do seu Criador, só de per si era bastante para a si mesma se restaurar. Ora, um abade rico, bacharel em Teologia, que lhe ouvira estas ideias assaz naturalistas, perguntou-lhe, à puridade, se ele negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, acrescentou: – Deus fez o supremo milagre da ciência para centuplicar as forças à natureza enfraquecida. – O teólogo enrugou cientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou: – O Senhor Reitor foi ferido da peste do século. Está iscado de Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor. – O reitor de Caldelas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o púlpito.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.