Por Machado de Assis (1873)
Luís da Costa, imaginando que o silêncio era efeito da bomba que acabava de queimar, entrou a referir os pormenores da fuga da moça em questão. Falou de um namoro com um alferes, da oposição do major ao casamento, do desespero dos pobres namorados, cujo coração, mais eloqüente que a honra, adotara o alvitre de saltar por cima dos moinhos.
O silêncio era sepulcral.
O desconhecido ouvia atentamente a narração de Luís da Costa, meneando com muita placidez uma grossa bengala que tinha na mão.
Quando o alvissareiro acabou, perguntou-lhe o desconhecido:
— E quando foi esse rapto?
— Hoje de manhã.
— Oh!
— Das 8 para as 9 horas.
— Conhece o major Gouveia?
— De nome.
— Que idéia forma dele?
— Não formo idéia nenhuma. Menciono o fato por duas circunstâncias. A primeira é que a rapariga é muito bonita...
— Conhece-a?
— Ainda ontem a vi.
— Ah! A segunda circunstância...
— A segunda circunstância é a crueldade de certos homens em tolher os movimentos do coração da mocidade. O alferes de que se trata dizem-me que é um moço honesto, e o casamento seria, creio eu, excelente. Por que razão queria o major impedi-lo?
— O major tinha razões fortes, observou o desconhecido.
— Ah! conhece-o?
— Sou eu.
Luís da Costa ficou petrificado. A cara não se distinguia da de um defunto, tão imóvel e pálida ficou. As outras pessoas olhavam para os dois sem saber o que ira sair dali. Deste modo correram cinco minutos.
IV
No fim de cinco minutos, o major Gouveia continuou:
— Ouvi toda a sua narração e diverti-me com ela. Minha sobrinha não podia fugir hoje de minha casa, visto que há quinze dias se acha em Juiz de Fora.
Luís da Costa ficou amarelo.
— Por essa razão ouvi tranqüilamente a história que o senhor acaba de contar com todas as suas peripécias. O fato, se fosse verdadeiro, devia causar naturalmente espanto, porque, além do mais, Lúcia é muito bonita, e o senhor o sabe porque a viu ontem... Luís da Costa tornou-se verde.
— A notícia, entretanto, pode ter-se espalhado, continuou o major Gouveia, e eu desejo liquidar o negócio pedindo-lhe que me diga de quem a ouviu...
Luís da Costa ostentou todas as cores do íris.
— Então? disse o major passados alguns instantes de silêncio.
— Sr. major, disse com voz trêmula Luís da Costa, eu não podia inventar semelhante notícia. Nenhum interesse tenho nela. Evidentemente alguém ma contou.
— É justamente o que eu desejo saber.
— Não me lembro...
— Veja se se lembra, disse o major com doçura.
Luís da Costa consultou sua memória; mas tantas coisas ouvia e tantas repetia, que já não podia atinar com a pessoa que lhe contara a história do rapto.
As outras pessoas presentes, vendo o caminho desagradável que as coisas podiam ter, trataram de meter o caso à bulha; mas o major, que não era homem de graças, insistiu com o alvissareiro para que o esclarecesse a respeito do inventor da balela.
— Ah! agora me lembra, disse de repente Luís da Costa, foi o Pires.
— Que Pires?
— Um Pires que eu conheço muito superficialmente.
— Bem, vamos ter com o Pires.
— Mas, sr. major...
O major já estava de pé, apoiado na grossa bengala, e com ar de quem estava pouco disposto a discussões. Esperou que Luís da Costa se levantasse também. O alvissareiro
não teve remédio senão imitar o gesto do major, não sem tentar ainda um:
— Mas, sr. major...
— Não há mas, nem meio mas. Venha comigo; porque é necessário deslindar o negócio hoje mesmo. Sabe onde mora esse tal Pires?
— Mora na Praia Grande, mas tem escritório na Rua dos Pescadores.
— Vamos ao escritório.
Luís da Costa cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu respeitosamente a calçada e ofereceu um charuto. O major recusou o charuto, dobrou o passo e os dois seguiram na direção da Rua dos Pescadores.
V
— O sr. Pires?
— Foi à secretaria da Justiça.
— Demora-se?
— Não sei.
Luís da Costa olhou para o major ao ouvir estas palavras do criado do sr. Pires. O major disse fleugmaticamente:
— Vamos à secretaria da Justiça.
E ambos foram a trote largo na direção da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as três horas, e Luís da Costa, que jantava cedo, começava a ouvir do estômago uma lastimosa petição. Era-lhe porém, impossível fugir às garras do major. Se o Pires tivesse embarcado para Santos, é provável que o major o levasse até lá antes de jantar. Tudo estava perdido.
Chegaram enfim à secretaria, bufando como dois touros.
Os empregados vinham saindo, e um deles deu notícia certa do esquivo Pires; disse-lhes que saíra dali, dez minutos antes, num tílburi.
— Voltemos à Rua dos Pescadores, disse pacificamente o major.
— Mas, senhor...
A única resposta do major foi dar-lhe o braço e arrastá-lo na direção da Rua dos Pescadores.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem conta um conto.... Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.