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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Ia a frota provida da sua palamenta e d'armas de golpe, os paióes estalavam abarrotados — não só levavam andainas de sobresalente mas ainda grande provisão de polvora e de bitume e pelouros e granadas. A botica, sabiamente sortida pelos cirurgiões, de nada carecia para os males que pudessem assaltar a maruja, salvo se a Deus aprouvesse a morte, senão, com os recursos que levavam, toda peste seria conjurada; e ainda carregavam, para escambos com os mercadores e dádivas aos principes que fossem topando, preciosidades em telas e em armas de lavor requintado e alfaias de trama delicada, sem contar os agasalhados dos officiaes, e dos marinheiros porque, cada qual, á medida da sua tença, tomara, mais ou menos, em terra para negocios no ultra-mar.

Varios interpretes seguiam para que entendessem as linguas dos diversos povos africanos e com elles se correspondessem; clerigos para que ministrassem os sacramentos e conduzissem as orações e doze galés de morte que seriam deixados nas terras onde abicassem para que se fossem familiarisando com os naturaes e com os seus idiomas afim de que, mais tarde, d'elles dessem noção aos navegantes quando tornassem a affirmar a conquista.

Sendo tudo preparado quiz El-Rei, que então se achava em Monte mór, o Novo, dar uma prova publica da sua confiança e estima ao que ia como chefe de tão dilatada aventura e ordenou-lhe que chegasse á sua presença. O bravo maritimo, mais affeito ao rolar das vagas e ao sibillar dos ventos na cordoalha do que ás maneiras subtis das cortes, achouse em embaraços quando, diante da nobreza, El-Rei, com o fausto dos seus brocados e a magestade da sua presença, do throno lhe dictou o que havia de fazer para dar cumprimento ao seu desejo que era o de realizar aquelle encargo que recebera como herança dos seus ante-passados—abrindo pelas aguas um caminho que conduzisse á India. E, na presença de todos, em linguagem perfeita e altiloqua, commemorou os serviços leaes do capitão que, de pé, olhos abaixados, pallido, sentia, pela primeira vez, o coração pequeno dentro do largo peito.

Da multidão rompeu um homem ricamente vestido e com ouro e pedrarias por todo o corpo trazendo veneradamente uma bandeira de seda na qual havia debuxada uma cruz vermelha, de Christo, Ordem que tinha El-Rei por governador e sobre ella o Gama, commovido como nunca o fora em perigos e dores, jurou que, em serviço do seu Deus e do seu Rei, sempre a traria desfraldada e alta, ainda que fossem superiores as armas dos infieis que com ella investissem, ainda que andassem concertados os elementos em desoriental-o, emquanto lhe corresse sangue nas veias havia de a ter firme e hasteada com gloria e honra.

E, assim jurando, tomou-a como insignia da sua capitanea e, com algumas cartas para o Preste João e outros varios principes das terras orientaes, entre os quaes o rei de Calecut, poz-se o capitão com os seus auxiliares de caminho para Lisboa onde as naus tiveram uma demora de tres dias esperando o vento que as levasse.

A doce manhã nascia, fresca e rosada, quando os sinos da capella de Nossa Senhora de Belém, entraram a repicar em festa pondo no ar, fino e azul, a alegria christã d'uma alleluia e despertando as gentes que, avisadas da grande expedição e curiosas de verem aquella aventureira partida, haviam acudido de longe estabelecendo aduares nas visinhanças da ermida onde, os que se faziam ao mar, costumavam deixar as suas promessas, recebendo contrictamente os preparativos espirituaes para que a morte os não tomasse em peccado sobre essas ondas affrontosas e desconhecidas.

Uma grossa multidão formigava com os olhos anciosos postos no templo de onde deviam sair os novos argonautas para as naus empavesadas que arfavam no rio como grandes aves marinhas que experimentassem as plumas para o vôo arrojado.

A paisagem, larga e calma, toda verde com o favor do tempo, dava uma funda saudade aos que, já de aprestos feitos, esperavam o momento angustioso da partida, apartando-se incertamente da patria, e os moinhos, velejando nos pendores dos outeirinhos, pareciam acenar aos que partiam amargurados adeuses e para o sempre, tão afflictas andavam as azas ao vento, esse mesmo vento que devia apojar as velas exploradoras.

Marujos, que se haviam engajado na frota, despediam-se dos seus parentes com palavras de conforto promettendo-lhes uma volta breve e favorecida e, por todos os meandros eram suspiros e lagrimas, juras e conselhos e permutas de prendas ; as mesmas arvores serviam como de fiadoras aos namorados porque em suas grossas cortiças entravam fundamente pontas de cutellos abrindo signos para que, á volta, fosse provado o juramento feito se os temporaes não levassem d'arranco o tronco, depositario ou se o perjurio não apagasse o emblema d'aquella fé.

Era a velha mãe a lembrar ao filho a sua vida solitaria, os cabellos brancos da sua fronte veneravel, as rugas da sua face, os tremores do seu coração. Como haviam de sentir as ovelhas quando se achassem no monte com outro pastor tomado a salario que, por certo, não as estimando como dono, não havia de as regalar abeberando-as em fontes frescas ou escolhendo macios pastos e, já alquebrada, como havia ella de subir ás rampas para recolher na clareira a lenha necessaria ao lume caseiro quando os cortantes ventos de Dezembro começassem a zimbrar vergando e desfolhando os castanheiros e açulando os lobos famintos contra os redis. Ai! que magua a de o ver partir!

(continua...)

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