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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Aborrecido, triste, completamente desarticulado dos meus hábitos, deixava-me então ficar pelos cantos, a cismar, a enfiar cachimbadas, sempre em busca de descobrir a ponta daquele mistério, que já me tirava regularmente o sono e o apetite.

E minha mulher — nada de desembuchar. A princípio lancei mão da violência. ameacei-a com os punhos cerrados, falei no meu revólver de seis tiros, depois — empreguei meios brandos. fiz-me terno, pedi, choraminguei, em seguida — recorri à astúcia. armei ciladas, fiz planos, espiei pelas fechaduras, andei na ponta dos pés, apalpei as trevas e procurei agarrar um gesto dos seus, um sorriso, ou uma dessas palavras indiscretas que às vezes nos escapam na inconsciência do sonho. Mas tudo isso foi inútil; tudo isso foi trabalho perdido.

Cresciam as dúvidas e com elas o meu padecer e as minhas tristezas.

Então, meu consolo único era um papagaio que ela trouxera quando nos casamos. Mas, ai!, esse mesmo, desde que a dona se enterrara no quarto, estava quase tão triste como eu e não queria dar à língua, nem à mão de Deus Padre.

Afinal, um dia, quando, de furioso que estava, ate já me dispunha a torcer-lhe o pescoço, o pobre bicho encrespou as penas da nuca, fechou voluptuosamente os olhos, abriu de leve as asas e disse, como quem suspira:

- “João Alves!”

Eu voltei-me para ele o mais ligeiro que é possível:

- Hein?! Como?! Fala, fala, minha rosa! Peço-te por amor de Deus que fales! Vamos! Quem passa, meu loiro?...

Mas o maldito abaixou a cabeça, e calou o bico por uma vez.

Entretanto, aquelas duas palavras que lhe escaparam, aquele nome, eram já um indício, uma descoberta, um ponto de partida. Se o papagaio as pronunciara tão bem, era sem dúvida porque de muito se havia familiarizado com elas.

Ora, eu nunca levara a casa nenhum João Alves; pela vizinhança também não me constava que houvesse gente com esse nome... de quem pois o ouvira o papagaio?...

Esta era a minha questão; este era o meu ponto de partida.

Mas, que noites, Sr. Redator! que noites passei eu a pensar naquelas duas palavras!... Quantas e quantas suspeitas não me passaram pela mente. Ah! Só pode compreender o peso de uma dúvida dessa ordem quem como eu a carregou nos ombros por tantos dias.

“João Alves! João Alpes!” Estas duas palavrinhas cosiam-me os miolos, como se uma fosse a agulha e a outra o fio!

Uma noite surpreendi me defronte de minha mulher, a berrar-lhe contra o rosto.

- Tu me hás de dizer quem é o João Alves! ou eu te beberei até a última gota de sangue!

Minha mulher soltou um grito e caiu de costas na cama, sem sentidos. Corri à despensa em busca do vinagre; mas, de atrapalhado que estava, demoro-me um pouco a encontrar o galheteiro e, quando volto ao quarto, já não achei ninguém.

Percorro toda a casa, revisto os móveis, os cantos, o quintal, o porão - nada! A pérfida havia se escapado pela porta da cozinha.

Si, fui à venda pedir informações; indago pela vizinhança, e só no dia seguinte descubro que a miserável fugira com um tal João Alves que há muito a convidava para isso.

- Ah! O papagaio tinha razão!

Armei-me, passei a noite a fariscar-lhes a pista. Pela manhã, depois de quebrar a cabeça em procurá-los, vim a saber que os infames estavam refugiados a dous passos de minha casa, numa hospedaria que ficava ao canto da rua.

Corri para lá espumando de raiva, meti ombros à porta, entrei; mas os fugitivos já lá não estavam e deles só havia um vestígio importante. Foi um cartão de visita que o amante de minha mulher deixara ficar por esquecimento.

Pois bem, Sr. Redator, nesse cartão estava escrito “Castro Matta”. E estes dous novos nomes, ligados aos que pronunciara o papagaio, aproximam-se singularmente do nome por extenso daquele célebre homem que hoje os jornais com tanto afinco procuram descobrir. E agora, custe o que custar hei de desencava-lo; não porque me interessem as questões públicas, mas porque esse João Alves de Castro Matta há de sofrer pelo que me fez.

É isso, Sr. Redator, o que por ora lhe tenho a comunicar e do que, peço, faça uma pequena notícia, escondendo os pontos mais privados desta carta. E, se V. Sª. quiser ligar o seu esforço ao meu, havemos de dizer ao público o que foi feito do Malta ou Matta, porque, segundo as últimas informações que colhi e que amanhã lhe enviarei, cada vez mais se justificam as minhas suspeitas sobre a identidade do grande patife.

Pelo que eu lhe for dizendo, verá V.Sª. que estou a par de tudo e que os mais culpados nesta questão não são os que mereceram as maiores acusações da imprensa.

Consola-me a idéia de que, vingando a minha honra ultrajada, vou igualmente prestar um grande serviço à justiça e ao Direito.

Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1884.

Sou de V.Sª.

Atº. Crº. Obrº.

Novas Revelações

Segunda Carta

Sr. Redator dA Semana.

(continua...)

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