Por Aluísio Azevedo (1882)
Os ânimos foram-se a pouco e pouco sobressaltando. Havia já no comendador um risinho velhaco de má fé, e a noiva, sem querer sair da alcova, sentiu avultar-lhe na garganta um novelo estranho que a sufocava.
A madrinha expedira secretamente um portador à casa do noivo. O portador voltara, declarando que o Sr. Gregório, havia coisa de uma hora, saíra para a casa da noiva em companhia de um senhor velho e de boa aparência que o fora buscar.
E declarou mais que na porta da rua estava um cocheiro, que viera da casa do Sr. Gregório, com a recomendação de esperá-lo aí.
Ninguém mais se animou a dar palavra, à exceção da madrinha, que nunca perdia ocasião de falar mal dos homens.
— Todos eles lêem pela mesma cartilha! considerou ela, trejeitando um ar desdenhoso. Bem fiz eu em nunca tomar a sério semelhante gente! Nada! Antes só do que mal acompanhada! Prefiro ficar solteira toda a vida!
— Descanse, D. Josefina, que ninguém a contrariará! respondeu um sujeitinho magro e ativo, que parecia muito empenhado no bom êxito do casamento.
Nisto foram interrompidos pelo padrinho do noivo, o Dr. Roberto, que vinha da igreja, farto, como os outros que lá estavam, de esperar pelos desposados.
— Pois se ele ainda nem apareceu por cá!... exclamou a madrinha, vermelha de cólera.
— Não veio?! Gregório não apareceu ainda?! disse o doutor muito admirado.
Parece incrível!
— Pois é a pura verdade!
— Ter-lhe-ia sucedido alguma coisa?! Estará ele doente?!
— Se está doente não sei, gritou a terrível madrinha; em casa é que lhe afianço que não está, porque agora mesmo mandei lá saber!
— Mas como então se explica tudo isto? Eu às três e meia estive com Gregório, e disse-me ele que ia preparar-se para o casamento.
E o doutor, depois de refletir um instante, tomou o chapéu e saiu, com a intenção de procurar o amigo.
Daí a pouco, todas as pessoas que esperavam pelos noivos na igreja, invadiram a casa de D. Januária, e começou-se então a tratar francamente do escândalo.
Clorinda desfez-se do véu e da grinalda, pediu à mãe adotiva que fechasse a porta da alcova, e depois atirou-se-lhe nos braços a chorar desorientadamente.
Entretanto, Gregório, o causador inconsciente de todo aquele desgosto, acabava nessa ocasião de ser carregado, sem sentidos, por dois lacaios de libré escura, para uma sala de bela aparência, na Tijuca.
Acompanhava-o um homens de uns cinqüenta anos, alto, magro, todo vestido de negro, barba inteira dividida no queixo, ar distinto e maneiras extremamente delicadas.
Ao chegarem à sala, o homem magro disse aos lacaios que depusessem Gregório sobre um divã, e ordenou que um deles fosse chamar a condessa.
Apareceu então uma senhora já velha, sumamente simpática, aspecto fino e bem educado.
— Então! disse o cavalheiro à condessa, apontando para Gregório, que, irrepreensivelmente vestido de casaca, continuava prostrado no divã. Os lacaios afastaram-se discretamente.
— Ah! exclamou ela, correndo para o desfalecido. Estou agora mais tranqüila!...
E, ajoelhando-se ao lado do divã em que estava o moço, tomou as mãos deste e ficou a observar-lhe a fisionomia.
Gregório era uma bela figura de vinte e três anos. Feições puras, bem conformado de corpo, um todo singularmente meigo e bondoso. O sono dava-lhe à fisionomia tal suavidade que o fazia parecer ainda mais moço do que era.
A condessa, depois de contemplá-lo por algum tempo, com muita ternura, passou-lhe a mão pelos cabelos e beijou-o na fronte.
— Veja, conde, disse ela ao homem vestido de preto; como é formoso!
— É o retrato da pobre Cecília! respondeu aquele com um ar pensativo.
E depois de uma pausa:
— Onde o devemos acomodar?
— Na sala amarela, disse a condessa, erguendo-se. O que me sobressalta um pouco é este sono. Não vá fazer-lhe mal...
— Pode ficar tranqüila, condessa, não lhe sucederá mal nenhum. E, se houvesse alguma novidade, bem sabe que o nosso médico é homem de inteira confiança.
Gregório foi conduzido para a sala amarela e só voltou a si às dez horas da noite.
Ao acordar, circunscreveu o olhar em torno. Todos os objetos que o cercavam lhe punham nos sentidos, ainda estonteados pelo sono, um estranho sabor de constrangimento e sobressalto.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.