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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Só a filha de D. Clementina, a flor das moças do Catete, a bela Filomena, teve o dom de acordar naquele coração encruado as fibras adormecidas do amor.

Ele próprio não atinara como "aquilo" se dera: Um dia, a convite de Guterres, foi à casa de D. Clementina, viu a pequena, ouviu-a cantar ao piano um romance de Tosti, e desde esse momento não ficou mais senhor de si.

E o amor, o desejo, a paixão, rebentaram-lhe por dentro, como um monstro que se levanta, espedaçando a velha calma de quarenta anos.

Era a primeira vez que amava. O Borges, que até aí vivera para as suas propriedades e para os seus prédios em construção, desde que viu Filomena, desde que concebeu a idéia de possuí-la, nunca mais pode compreender a existência sem a companhia dessa formosa criatura, por quem logo se sentiu capaz de todos os sacrifícios.

Lamentava, contudo não ser mais novo; não dispor de mais atrativos, para melhor merecê-la. Desejava ser mais fino, mais terno, mais civilizado; temia assustála com a sua medonha figura de touro. Receava o contraste formidável de sua grossa corpulência, do seu abdome redondo e farto, de suas mãos curtas e vermelhas, de seus pés enormes, postos em confronto com aquele corpinho tão delicado, tão bem feito, com aquela pele tão branca, com aqueles pézinhos tão sutis.

— Oh! aquele casamento realizava o melhor sonho de sua vida! Ele queria-a

tanto!...

Os amigos ficaram pasmados quando tiveram notícia do fato:

— Que?!... — Pois o Borges, o "João Touro", aquele pax vobis ia casar! e logo com quem?... — com a filha de D. Clementina — a moça mais romântica e mais cheia de fumaças que havia no mundo!... Oh! — O João Touro com certeza não estava em seu juízo! — Ninguém lhe dizia que não casasse; mas, que diabo! fosse buscar uma mulher mais própria para isso e não uma cabecinha de vento, que só cuidava em patacuadas e maluquices!

O seu amigo mais íntimo e mais antigo, o Borroso, não se pode conter> quando o Borges lhe falou nisso:

— Enlouqueceste, homem de Deus?! Não vês que vais fazer uma reverendíssima asneira?! Não vês que aquilo não e mulher que te convenha?! Não desconfias, pedaço d'asno, que aquela sirigaita e mais a raposa da mãe estão a farejar-te os cobres?!... Não compreendes que elas te querem, porque tens para mais de quinhentos contos?! Ora vai deitar um caustico na nuca?!

João Touro, porém, não estava em circunstâncias de pensar. Todo ele era pouco para a sua paixão e, depois de uma conversa agitada com o Barroso, concluiu, perdendo a paciência:

— Homem! queres saber de uma coisa?! Vocês podem rosnar como entenderem; o que lhes afianço é que só a própria D. Filomena seria capaz de me fazer desistir do casamento. Só ela! Entendes tu?! só ela!

— Bem, filho! respondeu o Barroso com o gesto de quem solta alguma coisa das mãos. — Tua alma, tua palma! Assim o queres, assim o terás. — Ora essa! Na certeza de que — para mim — se levares a cabo a tua doidice — perdeste tudo!

— Pois que perca! É boa!

— E desde então não contes comigo para coisa alguma!

— Vai para o diabo! gritou-lhe o Borges, enterrando o chapéu na cabeça, e saindo furioso.

Entretanto a Filomena custou bastante resolver-se a dar o "sim".

Muito sonhadora, muito saturada de romantismo não se conformava com a idéia de se ligar a um burguês ratão como o Borges.

Tinha lá o seu ideal, seu tipo e, só com muito sacrifício, desistiria da esperança de encontrá-lo no mundo.

Sempre fora muito dessas coisas. Aos quinze anos, perdia noites a ler novelas, várias vezes foi a mãe encontrá-la assentada no jardim, olhos no céu, a cismar, a cismar, perdida nos seus devaneios.

Era então franzina, muito descorada, e tinha grandes pupilas negras de um rebrilhar de tísica. Quase nunca expunha o colo, e seus vestidos, sempre afogados, cosidos à garganta por um estreito colarinho de rendas, davam-lhe o ar passivo e contrafeito de uma pensionista das irmãs de caridade.

Quando ria, o que era raro, mostrava dentes grandes, alinhados e extremamente claros. De perto, bem examinada, notava-se-lhe no canto dos olhos, estalando o pó de arroz, uma redezinha de pequenas rugas trêmulas, que se espalhavam pelas fontes, até à entrança dos cabelos. Em torno das sobrancelhas, finas e delgadas, nas mucosas das pálpebras, das orelhas, do nariz e da boca — um tom arroxeado de umidade serosa e doentia. As pestanas, muito escuras e rama1hudas, pareciam despregar e cair a cada movimento dos olhos.

(continua...)

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