Por Aluísio Azevedo (1884)
— Então! disse o Paiva, batendo-lhe no ombro. — Mal! respondeu Amâncio, sem levantar a cabeça, que deixara cair sobre o peito. E com um gesto pediu água.
— Isso passa! afiançou o colega, entregando-lhe o púcaro cheio. Estás é com um formidável pifão.
E riu-se.
— Eu quero vomitar! exclamou Vasconcelos, apressado pela agonia, e mal teve tempo de erguer o rosto.
— És um fracalhão! Ponderou o companheiro, amparando-o pela testa. — Que diabo! Quem não pode com o tempo não inventa modas!
— Amâncio não respondia: Os engulhos vinham-lhe uns sobre os outros.
— Ai! ai! gemia oprimido .
— Ora que tipo! disse o Paiva, atirando-o sobre os travesseiros. — Vê se consegues dormir! Isto não é nada!
E narrou um caso idêntico, que experimentara.
Amâncio sentia-se um pouco mais aliviado, continuava, porém, a suar frio; tinha a cabeça completamente ensopada e não dispunha de forças para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe com um entorpecimento pesado de sono. Pediu mais água. E, depois de a tomar , deu a entender que era preciso que o despissem e descalçassem .
Paiva entrou a tirar-lhe a roupa, safou-lhe com dificuldade as botinas, porque as meias estavam suadas.
Amâncio, muito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra banda, aiava sempre. Afinal sossegou, parecia adormecido; mas, ergueu-se logo, com ímpeto, e começou a vomitar de novo, sem dizer palavras.
— Que pifão! reconsiderava o colega, encarando-o com as mãos cruzadas atrás.
— Homem! Vê-se lhe dás um pouco de amônia! lembrou do fundo do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa.
Só então Amâncio percebeu que ali, a seis ou sete passos distante dele, estava um rapaz magro , muito amarelo, em ceroulas e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo preocupado, um grosso volume que tinha sobre o estômago. Parecia deveras ferrado no seu estudo, porque até aí não dera fé do que se lhe passava em derredor.
— Olha! disse ao Paiva.— Creio que está acolá, sobre a banca, por detrás do Comitê. É um frasquinho quadrado, com rolha de vidro.
Dito isto, recolheu-se de novo à leitura, como se nada houvesse sucedido.
Amâncio serenou de todo com algumas gotas de amoníaco em um copo d’água , e afinal pegou no sono profundamente.
Só acordou no dia seguinte, quando o sol já entrava pela única janela do quarto.
Sentia a boca amarga e o corpo moído. Assentou-se na cama e circunvagou em torno os olhos assombrados, com a estranheza de um doido ao recuperar o entendimento.
O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo sítio; agora, porém dormia, amortalhado a custo num insuficiente pedaço de chita vermelha.
Do lado oposto, no chão, sobre um lençol encardido e cheio de nódoas, a cabeça pousada num jogo de dicionários latinos, jazia o Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um colete de flanela. Mais adiante, em uma cama estreita de lona, viam-se dois moços, ressonando de costas um para o outro, com as nucas unidas, a disputarem silenciosamente o mesmo travesseiro.
O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e boêmia. Fazia má impressão estar ali: o vômito de Amâncio secava-se no chão, azedando a ambiente; a louça, que servira ao último jantar, ainda coberta de gordura coalhada, aparecia dentro de uma lata abominável, cheia de contusões e comida de ferrugem. Uma banquinha , encostada à parede, dizia com o seu frio aspecto desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar durante a noite, até que se extinguira a vela, cujas últimas gotas de estearina se derramavam melancolicamente pelas bordas de um frasco vazio de xarope Larose, que lhe fizera as vezes de castiçal. Num dos cantos amontoava-se roupa suja; em outro repousava uma máquina de fazer café, ao lado de uma garrafa de espírito de vinho. Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, sobre jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de casimira: em uma das ombreiras da janela havia umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas de um prego. Por aqui e por ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No meio do soalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
A luz franca e penetrante da manhã dava a tudo isso um relevo ainda mais duro e repulsivo: o coração de Amâncio ficou vexado e corrido, como se todos os ângulos daquela imundície o espetassem a um só tempo. Ergueu-se cautelosamente, para não acordar os outros, e foi à janela. O vasto panorama lá de fora estremulhou-lhe os sentidos com o seu aspecto.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.