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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Tinha pois como impossível que um moço, em seu perfeito juízo, dirigido por conselho de homem experiente, repelisse a fortuna que de repente lhe entrava pela porta da casa, e casa da rua do Hospício a sessenta cruzeiros mensais, para tomá-lo pelo braço e conduzí-lo de carruagem, recostado em fofas almofadas, a um palácio nas Laranjeiras. 

Sabia Lemos que os escritores para arranjarem lances dramáticos e quadros de romance, caluniavam a espécie humana atribuindo-lhe estultices desse jaez; mas na vida real não admitia a possibilidade de semelhantes fatos. 

- Não se recusam cem mil cruzeiros, pensava ele, sem uma razão sólida, uma razão prática. O Seixas não a tem; pois não considero como tal essas palavras ocas de tráfico e mercado, que não passam de um disparate. Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre diabo até que o leva a breca não faz outra coisa senão comprar e vender? Para nascer é preciso dinheiro, e para morrer ainda mais dinheiro. Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato. 

Assim, convencido de que Seixas não tinha o que ele chamava de razão sólida para rejeitar o casamento proposto, não vira Lemos na primeira recusa senão um disfarce, ou talvez o impulso dessa tímida resistência, que os escrúpulos costumam opor à tentação. Esperava, pois, salutar revolução que dentro de poucos dias se devia operar nas idéias do mancebo. 

Ao sair da casa de Seixas, Lemos dirigiu-se à casa do Amaral, onde entabulou uma negociação que devia assegurar o êxito da primeira. 

Desenganado o moço da Adelaide e dos trinta mil cruzeiros, não tinha remédio senão aceitar a consolação dos cem mil; consolação que levaria o pico de uma vingançazinha. 

Não sei como pensarão da fisiologia social de Lemos; a verdade é que o velhinho não mostrou grande surpresa quando uma bela manhã veio dizer-lhe seu agente que o procurava um moço de nome Seixas. 

Esse agente chamava-se Antônio Joaquim Ramos, e era o mesmo de quem o velho tomara emprestado o nome. Estava prevenido pelo patrão desta circunstância que não o surpreendia, pois era jubilado em tais alicantinas. 

- Que espere! Gritou o velho. 

Tinha Lemos na loja da casa de morada uma coisa chamada escritório de agências. 

Era um corredor que dava porta para a rua e estendia-se até a área do fundo, onde o velho trabalhava dentro de uma espécie de gaiola, feita de tabique de madeira com balaústres. 

Fora daí que respondera. Era seu costume sempre que ia tratar de qualquer negócio importante, ruminá-lo de antemão para não ser tomado de improviso. Foi o que fez nesse momento. 

- De que disposições virá o sujeito? Quererá sondar-me a respeito da noiva, desconfiado de que lhe pretendo impingir alguma carcaça? Ah! Ah! Por este lado não há perigo. Terá intenção de regatear? A menina não se importa de chegar até os duzentos mil cruzeiros e aposto que se for preciso vai por aí fora, que isso de mulher, o dinheiro faz-lhe cócegas. Mas eu é que não estou pelos autos! Seguro-me nos cem mil, que daí não me arrancam. Quando muito uns vinte mil de quebra, para o enxoval e nem mais um centavo! 

Tendo feito seus cálculos, Lemos chegou à porta do cubículo e gritou para a frente do armazém: 

- Mande entrar! 

Quando Seixas chegou ao escritório, já Lemos estava de novo trepado no mocho, e debruçado à carteira continuava a despachar seus negócios. Sem erguer a cabeça fez com a mão esquerda um gesto ao moço indicando-lhe o sofá. 

- Queira sentar-se; já lhe falo. 

Terminada a carta e enxuta com o mata-borrão, Lemos fechou-a na competente capa; pôs-lhe sobrescrito, e só então girando sobre o mocho, como uma figurinha de cata-vento, apresentou a frente ao moço. 

- O senhor deseja falar-me? Perguntou. 

- Já não se recorda de mim? Perguntou Seixas inquieto. 

- Tenho uma lembrança vaga. O senhor não me é de todo estranho! 

- Não há três dias estivemos juntos, tornou Seixas; é verdade que pela primeira vez.

- Há três dias?... 

E Lemos fez semblante de recordar-se. 

Desde que entrara, Seixas mostrava em sua fisionomia, como em suas maneiras, um constrangimento que não era natural ao seu caráter. Parecia lutar contra uma força interior que o demovia da resolução tomada; mas não se podia subtrair-se a esses rebates, dominava-se bastante para subjugá-los à necessidade. 

(continua...)

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