Por José de Alencar (1861)
Miranda — Dever!... A Senhora não tem deveres para comigo!
CENA VII
Os mesmos e Alves
Alves — Permissão para um viajante!
Miranda — Oh! Alves!... Quando chegaste?
Alves — Esta manhã. (A Isabel) Minha Senhora! Soube agora que estavas aqui!
Miranda — Foste feliz na tua viagem? Gozaste sempre saúde?
Alves — Por esse lado não tenho razão de queixa. Passa-se perfeitamente em Minas: mas os negócios não correm bem.
Miranda — Creio que agora correm mal por toda a parte.
Alves — É verdade!... Mas, por lá não fazes uma idéia... Vai para um ano, hás de te lembrar, que ando nas minhas cobranças, e de oitenta contos de réis não cheguei a arrecadar vinte!.
Miranda — Não desanimes por isso! Continua a trabalhar, e espera por melhores tempos.
Alves — Sim; porém os meus credores, a quem passei letras ao prazo de um ano, não esperam mais! Meu sócio já me escreveu, participando-me isso, e eu não sei o que fazer... Acho-me como vês numa situação bem crítica.
Miranda — Realmente para um homem do teu caráter a posição é terrível. Faltar aos seus compromissos.
Alves — Ver declarar-se a falência da sua casa, e apesar de sua boa fé, fica sujeito a suspeitas injustas! Isso tem-me feito sucumbir! O prejuízo enfim, vá feito. Tenho forças para suportar a pobreza.
Miranda — Oh! A pobreza não assusta aos homens honestos. Dá-lhes estímulo ao contrário. Mas, dize-me que posso eu fazer em teu favor?
Alves — Obrigado por esta palavra! Não esqueci o oferecimento sincero que me fizeste na ocasião de minha partida; mas, se não o lembrasses, não teria ânimo.
Miranda — Sim, eu te disse que podias recorrer a mim, no caso de qualquer embaraço...
Alves — É o que eu faço e com bastante acanhamento. Nestes negócios vexo-me mais em dirigir-me a um amigo, do que a um estranho, a quem obrigo a minha firma, e não o meu reconhecimento.
Miranda — Não devias ter acanhamento comigo. A minha fortuna estava toda à tua disposição...
Alves — És um verdadeiro amigo.
Miranda — Atende! Não mereço os teus elogios. O que eu te oferecia há um ano não o posso agora.
Alves — Perdeste a fortuna?
Miranda — Não a tenho.
Alves — Mas tuas propriedades, tuas apólices.
Miranda — Vendi-as todas.
Alves — E o produto?
Miranda — Não sei!...
Alves — Roubaram-te?...
Miranda — Não.
Alves — Mas como se consome assim mais de cem contos de réis em um ano!...
Miranda — A vida é cara na atualidade... A política faz descuidar os negócios... Mil cousas que fora longo dizer!
Alves — Ah! Desculpa-me! Vejo que te incomodo!
Miranda — Não! O que sinto é não poder servir-te.
Alves — Por isso não deixaremos de ser amigos... Nada valho e agora menos; mas sou sempre o mesmo: na fortuna como na adversidade. Ao menos a franqueza acharás sempre em mim.
Miranda — Agradeço-te. Se alguma vez recorresse aos meus amigos, não lhes faria a injúria de duvidar de sua palavra; nem exigiria deles os motivos de seu procedimento. Há reservas que se respeitam.
Alves — Acabemos com isso, Miranda. Perca-se tudo embora; mas o que eu não quero perder é a tua amizade.
Isabel — Senhor Alves.
Alves — Perdão, minha Senhora.
Isabel — Atenda-me um instante. Eu lhe explico!
Alves — Não é necessário.
Isabel -— Não posso deixar que o Senhor conserve uma queixa de seu amigo e por minha causa... Foi um erro meu; as mulheres são às vezes tão imprudentes...
Miranda — Não se trata disso agora.
Isabel — Tive a fraqueza de falar na riqueza de meu pai, uma vez que meu marido não quis satisfazer um capricho meu, uma extravagância... Ele perdoou-me; mas jurou que não tocaria nessa fortuna... Compreende agora... um escrúpulo... uma susceptibilidade... Dele pois, ou de mim, aceite, Senhor Alves.
Alves — Não devia duvidar de ti!... (A Isabel) Eu admiro e agradeço, minha Senhora. Mas não posso aceitar sem o consentimento de Miranda. (Entra Henrique)
Miranda — Ela pode dispor livremente do que lhe pertence, Alves.
Isabel — Ouve? Não deve recusar.
Alves — Mas, D. Isabel, eu tenho escrúpulos... Luto com embaraços; posso ser infeliz, e causar-lhe graves prejuízos.
Isabel — Que
importa!... Então deverei tudo a meu marido. É um orgulho de mulher, Senhor
Alves.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.