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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

ATO IV

Em casa de EDUARDO. Sala de visitas.


CENA PRIMEIRA

EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA, PEDRO (CARLOTINHA na janela; PEDRO sacudindo os tapetes.)


CARLOTINHA (baixo, a PEDRO) - Não passará ainda hoje?

PEDRO - Não sei, nhanhã.

CARLOTINHA - Está doente?... Zangado comigo?... Por quê?

PEDRO - Não se importe mais com ele! Há tanto moço bonito! Sr. Azevedo... (PEDRO vai colocar o tapete e sai.)


CENA II

EDUARDO, HENRIQUETA, CARLOTINHA


EDUARDO - Quando eu lhe digo que espere, Henriqueta, é porque estou convencido de que há um meio de desfazer esse casamento sem a menor humilhação para seu pai.

HENRIQUETA - E esse meio qual é?

EDUARDO - Não lhe posso dizer; é meu segredo.

HENRIQUETA - Ah! Tem segredos para mim?

EDUARDO - É injusta fazendo-me essa exprobração, Henriqueta. Se não lhe falo francamente, é porque não desejo que partilhe, ainda mesmo em pensamento, os desgostos, as contrariedades que eu há um mês tenho sofrido para conseguir esse meio de que lhe falei.

HENRIQUETA - Mas, Eduardo, uma parte dessas contrariedades me pertence, e por dois títulos; porque se trata de mim, e porque nos... estimamos!

EDUARDO - Porque nos amamos: é verdade! Mas nessa partilha igual que fazem duas almas da sua dor e do seu prazer, há a diferença das forças. À mulher cabe a parte do consolo, ou da ternura; ao homem, a parte da coragem e do trabalho.

HENRIQUETA - Então eu não tenho o direito de fazer também alguma coisa para a nossa felicidade?

EDUARDO - Não disse isto! Faz muito!

HENRIQUETA - Como? Se toma para si tudo e não me quer deixar nem mesmo a metade dos cuidados?

EDUARDO - E quem me dá força para prosseguir e a fé para trabalhar? Não são esses momentos que todos os dias passamos juntos aqui ou em sua casa?

HENRIQUETA - Assim, não me quer dizer qual é essa esperança? 

EDUARDO - Não desejo afligi-la com idéias mesquinhas. Os homens inventaram certas coisas, como os algarismos, o dinheiro e o cálculo, que não devem preocupar o espírito das senhoras.

HENRIQUETA - Porque somos nós tão fracas de inteligência?... 

EDUARDO - Não é por isso; é porque tiram-lhes o perfume e a poesia.

HENRIQUETA - Isso é muito bonito, mas não me diz o que desejo saber.

EDUARDO - O quê?

HENRIQUETA - O meio por que há de fazer o meu casamento.

EDUARDO - Ainda insiste; pois bem, hoje mesmo lhe direi.

HENRIQUETA - Sim?

EDUARDO - Talvez daqui a uma hora.

CARLOTINHA - Mano, aí entrou uma pessoa, que julgo procurar por você.

EDUARDO - Há de ser naturalmente o negociante que espero.


CENA III

Os mesmos, PEDRO


PEDRO - Está ai o homem que escreveu aquela carta; quer falar ao senhor.

EDUARDO - Manda-o entrar para o meu gabinete. 

PEDRO (baixo, a CARLOTINHA) - Nhanhã Carlotinha está triste!... Hi!...

EDUARDO - Até logo, Henriqueta.

HENRIQUETA - Já! Que vai fazer?

EDUARDO - Concluir um pequeno negócio; ao mesmo tempo realizar um pensamento que me foi inspirado pelo nosso amor.

HENRIQUETA - Como?

EDUARDO - Quero solenizar a nossa felicidade, Henriqueta, exercendo um dos mais belos direitos que tem o homem na nossa sociedade.

HENRIQUETA - Qual?

ÊDUARDO - O direito de dar a liberdade!

HENRIQUETA - Não entendo.

EDUARDO - Dir-lhe-ei tudo logo.

HENRIQUETA - Volte, Sim?

EDUARDO - Demorar-me-ei apenas o tempo de assinar um papel e escrever algumas linhas.

 

CENA IV

HENRIQUETA, CARLOTINHA


HENRIQUETA - Sabes, Carlotinha, tenho uma queixa de ti.

CARLOTINHA - De mim? Que te fiz eu, má?

HENRIQUETA - Há um mês espero que tu me contes uma coisa, e ainda não me disseste uma palavra.

CARLOTINHA - De quê? Não sei.

HENRIQUETA - Do teu segredo; não te confiei o meu?

CARLOTINHA - Ah! Quem te disse?

HENRIQUETA - Eduardo.

CARLOTINHA - Não acredites, ele estava gracejando.

HENRIQUETA - Não, tu amas, Carlotinha, e nunca me falas dos teus sonhos, de tuas esperanças. Não sou eu mais tua amiga?

CARLOTINHA - Pois duvidas?

HENRIQUETA - Se fosses, não me ocultarias o que sentes.

CARLOTINHA - Não te zangues; eu te contarei tudo, mas custa tanto falar dessas coisas!

HENRIQUETA - Com aqueles que nos compreendem é um prazer bem doce.

CARLOTINHA - Olha, o meu segredo... Porém não sei como hei de começar isto!

HENRIQUETA - Começa pelo nome. Como ele se chama?

CARLOTINHA (confusa) - Alfredo.

HENRIQUETA - Este moço que teu mano nos apresentou?

(continua...)

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