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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. Sua Majestade barrava-as de manteiga nacional – preferia a manteiga do seu Pais, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão português, e o pé do porco nas tripas também portuguesas – tudo do seu País. Que rei, que patriota! – meditava o abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as lágrimas ternas no alcobaça.

No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos espanhóis, de contrabando; desabotoava o colete, dava arrotos, repoltreava-se na cadeira de sola um pouco desconfortável, e vaporava grande colunas de fumo que se espiralavam até ao tecto.

A Senhorinha veio à beira de el-rei, e disse baixinho:

– Saberá Vossa Majestade que está ali o Sr. Trocatles.

– O...?

– Ai! já me esquecia... o Senhor Visconde..

– Que suba.

O sujei-to que entrou era o Torcato Nunes, uni sargento do exército realista, de São Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcova.

A cozinheira dizia em baixo à outra criada de fora:

– Ó coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!

E a outra, benzendo-se:

– Não que ele, o mundo sempre dá voltas! Veja você! aquele moinante que me pediu uma vez dois patacos para cigarros, e por sinal que nunca mos pagou!

– Pois vês aí! Foi ele o primeiro que conheceu o Sr. D. Miguel, é o que foi, e Sua Majestade gosta muito dele. Foi feliz o diabo do homem! Aquilo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho dele, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está cónego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher dele já botou no domingo passado a sua saia e jaqué de pano azul.

– E que rico pano!

– Pois vês aí...

Entrava nesta conjuntura o abade, esfadigado, suarento – que levasse o Diabo a freguesia, que pouco tempo havia de aturar maçadas daquelas, para confessar uma bêbeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira da Póvoa e caíra de um valado abaixo. E ele? – perguntava – almoçou bem?

– Ora! não há que perguntar, senhor! Aquilo, salvo seja, é como a cal de uma azenha. É quanto lhe deitarem para a tripa. Coisa assim! Subiu agora para lá o Munes. Ai! já me esquecia, é Senhor Abade! Olhe que na vila já perguntaram se cá na casa estavam hóspedes, porque vinham para cá muitas comidas. Que não vão eles pegar a desconfiar.. Esta pergunta à moça traz água no bico.

– E tu que respondeste, moça?

– Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de confesso...

– Andaste bem.

Quando o padre Marcos Rebelo subia à sala, pedindo licença a meio da escada, já o rei e o visconde vinham saindo da alcova – um, aprumado na atitude da majestade, o outro, na do respeito, muito composto.

– Pede licença na sua casa, Dom Prior? – disse el-rei.

O Dom Prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se a erguê-lo.

– Nada de etiquetas, já lho disse dúzias de vezes.

– Não posso nem devo proceder de outra maneira, senhor!

– Pode e deve que o mando eu.

E o abade, inclinando-se com os braços em cruz sobre a batina:

– Saberá Vossa Majestade que o Sr. Capitão-Mor de Santa Marta, a quem Vossa Real Majestade fez barão de Bouro...

– Bem sei... aquele amável cavalheiro...

– Perfeito cavalheiro – atestou o Nunes.

– Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de Vossa Majestade. El-rei leu alto:

Amigo Dom Prior de Guimarães. – Um realista do concelho de Famalicão chegou há pouco a esta casa, a fim de que eu escrevesse ao meu nobre e velho amigo para obter de S. M. licença para lho apresentar como portador de uma carta do Sr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz ele que o Sr. D. Miguel fora amigo pessoal do dito tenentecoronel, e por isso entende, e eu também, que será muito do real agrado do nosso rei e senhor receber a carta deste legitimista que nos pode ser muito útil, já pelo seu nome, como também pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira transmitir-mas...

– Estou-me recordando – dizia o príncipe pausando as suas reminiscências – Cerveira Lobo.., tenentecoronel de dragões... O Cerveira, o meu amigo Cerveira...

– Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os liberais, com a cavalaria e mais o coronel de dragões, o Albuquerque – lembrou o Nunes, o visconde Munes –, Vossa Majestade lembra-se?

– Perfeitamente. Dom Prior, queira escrever ao barão a dizer-lhe que espero ansiosamente a carta do meu amigo Cerveira.

Enquanto o abade ia ao seu quarto escrever, o hóspede disse ao ouvido do outro:

– Isto cone mal..

– Porquê?

– Se o homem cá vem, o meu grande amigo.

– Recebe-lo como o teu grande amigo...

– Se me fala em particularidades...

(continua...)

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