Por Aluísio Azevedo (1882)
— O que mais me admira é não estar o senhor a par de tudo isto!
— Como poderia estar, se ainda não voltei à casa da noiva; tenho gasto o meu tempo a procurar Gregório por toda a parte. Quando soube que ele desaparecera, corri às Laranjeiras; o Jacó, porém, não me adiantou a menor idéia...
E os dois conversaram ainda largamente sobre o mesmo assunto, sem que nenhum deles conseguisse achar o fio do enigma.
O Dr. Roberto retirou-se afinal para casa, torturado de incertezas e receoso de uma grande calamidade.
Júlia compareceu ao novo inquérito.
— Conhece a Menina do Bandolim? perguntou-lhe o chefe de polícia ao cabo de seu interrogatório.
— Pode ser, mas se a conheço, não ligo o nome à pessoa.
— Tenha a bondade de ver este desenho; ele dá uma idéia perfeita de quem falamos.
E o chefe passou à viúva um quarto de papel branco, onde havia um esboço a pena.
Júlia mal olhou para o papel, exclamou:
— Ah! Já sei! Agora sei quem é.
E, apesar da situação, não pôde deixar de rir.
Era uma excelente caricatura da Menina do Bandolim, desenhada a traços largos pelo Raul Pompéia. Esse desenho mais tarde foi reproduzido pelo próprio autor e oferecido à galeria da saudosa Gazetinha, donde o subtraiu naturalmente algum polícia secreta.
— Donde a conhece? perguntou em seguida o chefe.
— De uma noite, em que por acaso a vi conversando com Gregório à mesa do café de Java.
— Sabe quais eram as relações entre ela e o acusado?
— Absolutamente; calculo, porém, que não passariam de um ligeiro namoro sem conseqüências. Essa menina é honesta...
— Conhece a letra do acusado?
— Perfeitamente.
— Tenha a bondade de ver esta carta.
E passando-lhe uma carta que tirou de um maço de papéis:
— Parece-lhe escrita por ele?
— Sim, esta letra é de Gregório ou muito se assemelha à dele.
— Faça o favor de ler, disse o chefe. — "Querida Teresa".
Mas como fizesse logo um ar de dúvida, o chefe esclareceu:
— Teresa é o nome da Menina do Bandolim.
— Ah! disse a viúva, e continuou a leitura: "Ontem não me foi possível ver-te um só instante: o trabalho prendeu-me até tarde; hoje, porém, creio que terei a ventura de contemplar-te por muito tempo. Se até lá não me houverem já devorado as saudades, aproveitarei a ocasião para te comunicar que chegou o momento de transformarmos a nossa sorte. Vai realizar-se aquilo, e com isso se realizará também o nosso casamento. Ah! quanto sou feliz só com pensar em semelhante coisa... Adeus, até logo, pensa um pouquinho em mim e tem confiança na minha coragem. — Teu G."
Seguia-se a data.
— Essa carta foi escrita justamente na véspera do crime, afirmou o chefe.
— Mas eu então nada entendo de tudo isto, porque a véspera do crime era igualmente a véspera do casamento de Gregório.
— A senhora possui a letra do acusado?
— Sim, senhor, e creio que a tenho aqui mesmo, respondeu a viúva, remexendo na sua bolsa. Ah! cá está um bilhete seu, acrescentou ela, passando uma tira de papel ao chefe de polícia.
O bilhete constava apenas disto:
"Nhanhã. — Não posso ir, como prometi, fazer-te companhia domingo ao jantar. Chegou da Europa um velho amigo meu, o Dr. Roberto, e tenho de estar com ele esse dia. Desculpa e recebe saudades. — Do teu."
Não havia assinatura. O chefe perguntou quem era aquele Roberto e, depois de sair a viúva, ordenou que o intimassem para comparecer à sua presença.
Continuava pois o processo, mas a polícia principiava a desesperar do nenhum êxito dos seus trabalhos de investigação. Os depoimentos seguiam-se quase sem intermitência; nada porém de aparecer o autor do crime! Os corpos de delito destruíam-se uns aos outros. Fez-se o interrogatório do velho Jacó, da noiva, dos padrinhos, dos convidados para o casamento e nada!
Gregório não aparecia, nem tampouco aparecia algum indício que servisse de orientação.
Entretanto Clorinda foi pouco a pouco se habituando à idéia da ausência do seu noivo e voltando aos hábitos primitivos de menina. A viuvez sem luto não é viuvez. Regressavam-lhe em breve os sorrisos ao rosto, como voltam as flores na primavera.
Passaram o primeiro e o segundo mês, ao terceiro já as coisas pareciam novamente metidas nos seus eixos. A casa de D. Januária retomava o ar que possuía antes do malogrado casamento; veio de novo o comendador Portela, sempre muito preocupado com a sua pessoa, veio D. Josefina com o seu mau gênio, veio o Dr. Roberto, acompanhado pela sua inalterável esposa, e veio o João Rosa, aquele sujeitinho magro e ativo, que no primeiro capítulo parecia muito empenhado no bom êxito do consórcio.
Aos domingos, à noite, reuniam-se eles invariavelmente em casa de D. Januária, ou em casa do Dr. Roberto.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.