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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Está respondeu Cecília no mesmo tom. Pode entrar. Mas veja se me vai comprometer...

— Descansa. Aí tens para os teus alfinetes...

Deu-lhe mais dinheiro.

A rapariga afastou-se, pensando no pobre noivo, o Roberto, que àquelas horas já devia estar farto de esperá-la; e o Borges, cheio de mil cautelas, penetrou no quarto perfumado e virginal de sua esposa.

Uma dúvida claridade de lamparina aquarelava meias sombras vagas e transparentes em torno do leito, onde Filomena se aninhava entre nuvens de linho branco. Ouvia-se um respirar tranqüilo e cadenciado, que vinha da cama.

Quando o marido sentou o primeiro pé no tapete da alcova, a mulher estremeceu, encolhendo-se toda com um suspiro.

Borges retraiu-se maquinalmente, e procurou esconder-se atrás do reposteiro da porta; mas o arfar ansiado de seu peito denunciou-o.

Filomena virou-se em um novo arrepio, e, depois de algum silêncio, perguntou com a voz alterada:

— Quem está ai?...

Borges não tugiu nem mugiu.

— Quem está aí? Não ouve?! tornou ela, erguendo a cabeça e fitando a porta.

O marido viu-a levantar a meio, desembaraçar um braço dos lençóis e procurar tateando alguma coisa na gavetinha do velador; ele, porém, não respondeu, e apenas se traiu por um estalo seco das juntas do joelho.

— Quem está aí, fale, com os diabos, se não quer receber uma bala nos miolos!

E engatilhou um revólver, fazendo pontaria ao reposteiro.

CAPÍTULO V

LUTA ABERTA

— Sou eu! disse o Borges, correndo para ela. — Não dispares! É teu marido!

Filomena, ao senti-lo perto da cama, repeliu a arma e, embrulhando-se no lençol, saltou pelo lado contrário, prestes a fugir.

— Não sairás! gritou o esposo, cortando-lhe a passagem.

— É então uma violência?! perguntou a mulher.

— Seja o que for, mas não me escaparás desta vez! — Socorro! gritou ela. Socor...

Não pôde continuar, porque o marido tomara-a nos braços e abafava-lhe com os beijos a voz.

Filomena debatia-se violentamente; afinal, soltou um grito desesperado, e caiu sem sentidos.

— Ora, mais esta!... resmungou o Borges, depondo a mulher sobre um divã. Filomena! Filomena! Então?! Que é isso?!

Ela não respondia.

— Ora senhores! — Ó Filoquinha! Anda! Volta a ti!

Filoquinha estrebuchava. Borges correu à procura de sais. Acudiram os criados. Cecília, aflita, andava de um para outro lado, sem saber que fizesse, a olhar espavorida para o amo, como quem olha para um bandido.

No entanto, o pobre esposo não saía de ao pé da mulher. Só no fim de meia hora, esta voltou a si, olhando estranhamente para os lados e a passar a mão repetidas vezes pela fronte.

— Ah! exclamou, dando com o marido. E escondeu o rosto, gritando entre soluços — que estava perdida, desonrada, chamando-se infeliz, pedindo a morte.

— Mas, meu amor, dizia-lhe o marido. Lembra-te de que sou teu esposo!

Lembra-te de que não estou cometendo um crime!

— Deixa-me! Deixa-me! respondia Filomena desorientada, em soluços. — Fuja! Retire-se! Já! Não quero que o vejam aqui! Vá! Vá-se embora! Siga esta mesma noite para longe! Saia do Rio de Janeiro! do Brasil! da América! Saia, se não quer que eu lhe de cabo da vida! Infame! Sedutor!

E chorava, desesperada, como se lhe tivesse sucedido uma grande desgraça O marido dizia-lhe palavras de ternura, animando-a; ela, porém, não se queria conformar com a situação, e soluçava cada vez mais fortemente.

O Borges, afinal, também se pôs a chorar. O dia veio encontrá-los numa orgia de lágrimas.

— Aí tem a minha bela vida de casado!... dizia ele entre dentes, na ocasião de abandonar a alcova de sua mulher. Esta, ainda em cima, o queria ver pelas costas!... Que vida a sua! Que vida, santo Deus!

Retirou-se para o seu quarto, desesperado, e atirou-se à cama, sem se despir, soluçando, escondendo o rosto entre os travesseiros.

Ia a pegar no sono, quando foi surpreendido por alguém, que chorava e gritava desesperadamente ao seu lado.

Era Cecília, que acabava de entrar no quarto, dizendo a berros que o Borges havia causado a sua desgraça; que a senhora pusera-a no olho da rua e que ela, pobre de si! desse momento em diante não tinha onde cair morta! Que o patrão fora a causa única de tudo aquilo! Que, infeliz que era! ia separar-se do Roberto, do homem destinado a ser seu marido e a quem dera por conta o seu coração e a sua ternura! E que agora...

Uma explosão de soluços sufocou-a.

— Sou muito desgraçada! berrava. — Sou muito desgraçada!

Ora, não me amoles tu também! gritou o Borges, erguendo-se da cama.

— Mas é que a senhora me despediu!

— Pois que a despedisse. Vão todos para o diabo! Eu também estou despedido e não me queixo! Arre!

(continua...)

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