Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Pois que chore na cama que é lugar quente! Não fosse ordinária! Faça lá o que bem entender, mas, com os diabos! não enquanto estiver comigo! Vá divertir-se com o boi! Sebo!

E passado logo em seguida pra um tom de voz calma e amiga. disse baixo ao gerente:

— Veja de quanto foi o prejuízo e faça uma conta a parte.

Pediu ainda uma vez desculpa aos rapazes, afiançou que eles tinham um criado na Ladeira da Glória, número tantos, e saiu, sempre às voltas com a sua arranhadura da mão direita.

Amâncio quis condenar o fato, mas o Paiva observou-lhe que aquilo se dava todos os dias no Rio de Janeiro.

— Eu já não estranho! disse.— Falta de educação!...

— Bem, meus senhores, são horas de eu me ir também chegando, advertiu Coqueiro, erguendo-se enfiando o paletó.

O Simões fez igual movimento e declarou que o acompanhava.

— Então, que é isto já? Exclamou Amâncio, querendo detê-los.

— É. Está se fazendo tarde, respondeu Coqueiro, a consultar o relógio. — Três horas.

— Impossível!negou Amâncio. — Era exato.

E Coqueiro, já de chapéu na cabeça e guarda-chuva debaixo do braço, apertou-lhe a mão com as duas, dizendo que folgava em extremo haver travado relações com ele e que o esperava, sem falta, no Domingo. Simões fez igualmente as suas despedidas, e os dois saíram a conversar sobre o quanto poderia custar a Amâncio aquele almoço.

— Também, que diabo, ficamos nós fazendo aqui? lembrou o Paiva, quando se viu a sós com o amigo. — Paga isso e vamo-nos embora. Queres tu ir até lá a casa?...

— Mas eu já estou a tanto tempo na rua ...considerou Amâncio.

— E o que tem isso?!...Deves contas de ti a alguém?! Ora essa!

— É que o Campos pode reparar!...

— Pois que repare! Manda plantar batatas ao tal de Campos! Tu não és nenhum caixeiro dele...Eu, no teu caso, nem ficava ali mais um dia! Que necessidade tens agora de passar às sopas de um negociante, e sujeitares-te a regulamentos comerciais? É de mau gosto estar hospedado em casa de negócio! Olha! Se quiseres, muda-te lá para a república. Sempre é outra coisa morar com rapazes! Aprende-se!

O criado, a quem já tinham pedido a conta, entrou com uma pequena salva na mão e foi, instintivamente, depô-la em frente de Amâncio.

— Espere, disse este, tirando dinheiro do bolso. E entregou-lhe uma nota de cem mil — réis.

O moço saiu correndo.

— Quanto foi? desejou saber o Paiva.

Oitenta e cinco mil-réis, respondeu o outro.

— Oitenta e cinco mil-réis! Oh! Que grande ladroeira!

E logo que o criado voltou com o troco:

– Homem, faça o favor de dizer em que se gastou aqui oitenta e cinco milréis!.. Salvo se vossemecês metem também na conta o que quebrou o Brás!

— Não senhor! Eu só cobrei os copos, que já estavam partidos antes do rolo.

— Que enorme ladroeira! insistia o Paiva, a sacudir a cabeça. – Deixa lá! aconselhou Amâncio, puxando-o para fora.

Precisava andar e tomar fresco. Aquele gabinete era um forno — sentia-se mal.

— É que não posso ver extorquir desta forma o dinheiro a ninguém! disse o Paiva indignado.

E principiou a fazer as contas pelo que se lembrava de ter vindo à mesa. Amâncio o puxou de novo:

— Deixa lá isso ,homem!

— Nada! Pelo menos hei de vingar-me aqui em alguma coisa!

O criado havia saído. Paiva Rocha principiou a derramar o resto das garrafas no açucareiro, a emporcalhar o damasco da cortina e a cuspir dentro das chávenas. Amâncio ria-se formalmente, mas, no íntimo aborrecido:

— Agora podemos ir! disse afinal o outro. — Ao menos deixo-lhe um prejuízo!

E ainda meteu no bolso um paliteiro e duas colheres.

– Lá na república, precisava-se daqueles objetos! acrescentou rindo. Já na rua, Amâncio reparou que a cabeça lhe estava muito pesada e queixou-se de suores frios. Paiva chamou um carro, e, uma vez dentro com o colega, mandou tocar par a Rua de Mata- Cavalos.

— Esqueceste aquilo de que falamos? perguntou em viagem ao companheiro.

Amâncio já não se lembrava.

Paiva respondeu, fazendo um sinal com os dedos .

— Ah! Quanto Queres?

— Dá cá uns cinqüenta ou sessenta, depois tos pagarei.

— Pois não! gaguejou Amâncio, passando-lhe três notas de vinte mil-réis.

CAPÍTULO IV

Amâncio chegou à república muito indisposto.

Quase que não dava conta dos quatro lances de escada, que a precediam.

Também foi só chegar e atirar-se à primeira cama, gemendo e resbunando ao peso de uma grande aflição. Estava mais branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo; respirava com dificuldade; a abrir a boca e a retorcer os olhos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →