Por José de Alencar (1875)
- Antes de tudo cumpre-me declarar-lhe que estou de algum modo comprometido e embora não haja um ajuste formal, todavia não poderia dispor livremente de mim.
- Os compromissos rompem-se dum momento para outro.
- É exato; às vezes ocorrem circunstâncias que desatam as mais solenes obrigações. Mas entre as razões que movem a consciência, não se conta o interesse; ele daria ao arrependimento a feição de uma transação.
- E o que é a vida, no fim de contas, senão uma contínua transação do homem com o mundo? Exclamou Lemos.
- Não vejo ainda a vida por esse prisma. Compreendo que um homem sacrifique-se por qualquer motivo nobre, para fazer a felicidade de uma mulher, ou de entes que lhe são caros; mas se o fizer por um preço em moeda, não é sacrifício, mas tráfico.
O Lemos insistiu com todos os recursos da dialética materialista que ele manejava habilmente. Não conseguiu, porém, desvanecer os escrúpulos do moço que o ouvia com afabilidade, mantendo-se inflexível na negativa.
- Bom, resumiu o velho. Não são negócios que se resolvem assim de palpite. O sr. Seixas pensará, e se como eu espero decidir-se, me fará o favor de prevenir. Vou deixar-lhe minha morada...
- Agradeço, mas para esse objeto é inútil, observou Seixas.
- Ninguém sabe o que pode acontecer!
O velho escreveu a lápis a rua e o número de sua casa numa folha da carteira que deixou sobre o consolo.
Meia hora depois, Seixas descia a rua do Ouvidor em busca do hotel de Europa, onde ia almoçar à fidalga, pela volta do meio dia.
De caminho encontrava os camaradas e conhecidos que o festejavam, pedindo-lhe novas da viagem e dando-lhe as mais frescas da corte. Entre estas figurava a aparição de Aurélia Camargo, que datava de meses, mas era ainda o grande sucesso do mundo fluminense.
Havia nessa noite teatro lírico. Cantava Lagrange no Rigoletto. Seixas, depois de um exílio de oito meses, não podia faltar ao espetáculo.
Às oito horas em ponto, com o fino binóculo de marfim na mão esquerda calçada por macia luva de pelica cinzenta, e o elegante sobretudo no braço, subia as escadas do lado par.
No patamar encontrou Alfredo Moreira com quem de véspera apenas falara de relance no Cassino.
- Ontem não sei onde te meteste, Seixas, cansei de procurar-te!
- Pois andava bem perto de ti. É que estavas ontem muito encadeado, respondeu Fernando a sorrir.
- É verdade! Que mulher, Seixas! Não imaginas. Olhas de longe e vês um anjo de beleza, que te fascina e arrasta a seus pés, ébrio de amor. Quando lhe tocas, não achas senão uma moeda, sob aquele esplendor. Ela não fala; tine como o ouro. Era para apresentar-te que eu te procurei. Ei-la que chega!
Esta última exclamação, Alfredo soltou-a avistando um carro que nesse momento parara à porta. Efetivamente dele saltou Aurélia, que se dirigiu acompanhada de D.
Firmina a seu camarote na segunda ordem.
Envolvia-a desde a cabeça até aos pés um finíssimo e amplo manto de alva caxemira, que apenas descobria-lhe o fino rosto à sombra do capuz e uma orla do vestido azul.
Era preciso ter a suprema elegância de Aurélia para dentre esse envolto singelo e fofo, desatar o talhe dum garbo encantador.
Ela parou justo em frente dos dois moços, voltando-lhes as costas, à espera de D.
Firmina, que se demorara a descer do carro.
Não é uma beleza? Perguntou Moreira ao camarada, em tom de ser ouvido.
Deslumbrante! Respondeu Seixas; mas para mim é uma beleza de espectro!
Não entendo!
É a imagem de uma mulher a quem amei, e que morreu. Esta semelhança me repele! Aurélia ficou impassível. Moreira que se adiantara para cortejá-la pensou que o amigo tinha razão. Efetivamente havia alguma coisa de fantástico, naquela fronte lívida e cintilante.
D. Firmina se aproximara. A moça retribuindo com um afável cortejo ao cumprimento do Alfredo, passou como se não se apercebesse de Fernando, e subiu à segunda ordem.
VIII
Lemos voltara satisfeito com o resultado da sua exploração.
Era o velho um espírito otimista, mas à sua maneira; confiava no instinto infalível de que a natureza dotou o bípede social para farejar sei interesse e descobrí-lo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.