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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Clarinha — Joaquim, ouve! Logo que escurecer hás de rondar pela parte de fora desta grade para que ninguém se aproxime. Estão-me roubando as flores.

Joaquim — Deixe estar, Nhanhã. Eu descobrirei quem é.



CENA V

Isabel e Clarinha



Clarinha — Ficas esperando por mano?

Isabel — E tu por que não esperas também por Henrique?

Clarinha — Não merece destas finezas! Não se deixou ficar ontem, por lá?... Que venha quando quiser!

Isabel — Fez mal; porém vinga-te com generosidade. Se o receberes com meiguice, se te mostrares alegre, e carinhosa, ele terá remorsos, e outra vez não passará assim dois dias fora de casa, sem necessidade.

Clarinha — Não passará dous não! Passará oito! Nada. Este sistema não me serve.

Isabel — Experimenta-o.

Clarinha — Há outro melhor!

Isabel — E não se pode saber?

Clarinha — Não, Senhora! Também tenho os meus segredos!

Isabel — Guarda-os: não sou curiosa senão da tua felicidade.

Clarinha — Não te demores, este jardim é muito úmido. E tu ainda não estás boa...

Isabel — Quem fechou isto?... (Na porta da cabana)

Clarinha — Fui eu! Que vais fazer aí?

Isabel — Meu chapéu!...

Clarinha — Ah! Não vi. Toma. (Fecha de novo e guarda a chave)



CENA VI

Isabel e Miranda

Miranda (cortejando de longe) — Boa tarde, está melhor?

Isabel — Melhor, muito obrigada. O Senhor passou bem?

Miranda — Passo sempre bem na cidade.

Isabel — Decerto. Está mais tranqüilo: não é obrigado a constranger-se a todo momento. Mas foi o Senhor quem exigiu que eu viesse a Petrópolis!

Miranda — Perdão! Não exigi. Clarinha convidou-a.

Isabel — Se eu não percebesse o seu desejo teria vindo?

Miranda — Este passeio deve fazer bem à sua saúde: é uma distração. Em companhia da sua prima, ao menos a Senhora não está tão só e tão triste. Isabel — A minha tristeza é natural; é gênio. Ninguém já repara nela. Mas o Senhor... Joaquim me disse... Tem feito tantas despesas em preparar a casa.

Miranda — Ah! Mandei fazer alguns consertos... Desculpe-me se não a preveni. Pensei que a casa como estava podia trazer-lhe lembranças desagradáveis...

Isabel — Guardava as mais doces recordações de minha vida! Não importa!... Nela viverei sempre feliz! O que sinto é que tome tanto incômodo por minha causa.

Miranda — Não, Senhora. A nossa posição exige uma certa decência, mesmo com sacrifício.

Isabel — E por que não consente que sua filha tenha uma parte nesses sacrifícios?... A glória de seu nome, os seus serviços, a estima pública que o cerca, não deve pertencer a ela algum dia? Por que não usa de sua fortuna?... Ela é rica!

Miranda — Minha filha é pobre... Quanto a essa fortuna, acredite-me, não a coloque nunca entre nós ambos... Se a felicidade de uma menina, e a sua honra, Senhora, só pudessem ser compradas por tal preço... Não teria a força.

Isabel — E tem a força de se ver caluniado, de ver pesar sobre a sua probidade uma suspeita infame! Quando podia destruí-la com uma palavra!

Miranda — Injúrias anônimas! Quem está livre delas?... Ah! Se fossem esses os espinhos de minha vida! Cuida que ainda resta sensibilidade para esses pequenos dissabores nas almas devastadas pelas grandes dores!

Isabel Se eu pudesse restituir-lhe a felicidade a custo de minha vida inteira... Mas tenho medo de morrer deixando-lhe essa idéia... É o que ainda me tem conservado neste mundo. Nunca, até hoje, o Senhor me quis ouvir uma palavra...

Miranda — Para quê?... É melhor não revolver esta cinza... seria mais uma humilhação para ambos, para o iludido, e para o que iludisse.

Isabel — Senhor!... Sinto que pouco tenho a viver!... O que eu lhe digo agora, direi com meu último suspiro, quando Deus já não deixa mentir!... Sou inocente!...

Miranda — E eu não o sei?...

Isabel — Ah!...

Miranda — A todo o momento o repito a mim mesmo... Estou ouvindo sempre, sempre, dentro de minha alma, essa palavra que já me disse uma vez... E quero crer... quero enganar-me a mim mesmo! Mas... não posso!

Isabel — Há em tudo isto um mistério que me condena!... Mas acredite! uma mulher criminosa, por mais vil que fosse, não vivia assim atada à sua vergonha, e esmagada por esse desprezo tão cruel, que a procura colocar a cada passo em face de um homem ridículo, que supõe seu amante! Oh! essa coragem só a dá consciência pura.

Miranda — Tenho-a feito sofrer muito! Por que não me deixou a mim só esse martírio!...

Isabel — Não cumpro o meu dever?

(continua...)

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