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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Enquanto assim procurava a baia reanimar o poldrinho, estavam contemplando-a, mudos e igualmente comovidos, o Manuel de um lado, do outro a tordilha. Esta deitava sobre a amiga uns olhares longos; de vez em quando castigava a travessura de seu poldrinho, arredando-o de si, quando se ele chegava para acariciá-la. Não queria ela, a mãe feliz, dar àquela mãe desventurada o espetáculo de sua alegria. 

Aquecido pela baba ardente do seio materno, foi o coitadinho a pouco e pouco recobrando o alento. Fazendo um esforço, pôde a Morena roçar as tetas roliças pela boca ainda imóvel do filho.  

Aí interpõe-se o Manuel, que espiava esse instante. Tinha a égua corrido cerca de vinte horas sucessivas, intercaladas apenas de um breve repouso. O suor que pouco há alagava-lhe o corpo, ainda perla sua roupagem macia. Arqueja ainda a vigorosa petrina, e o resfolgo é ardente como o fumo de uma cratera. 

Receia o gaúcho que esse leite agitado, não só pela fadiga, como por abalos profundos, seja, em vez de licor vital, mortífero veneno. Tira, pois, o poldrinho do regaço materno, apesar da relutância da Morena, que afinal cede. Fora necessária alguma severidade; Manuel, com o fragmento do laço, peara-lhe as mãos, obrigando-a assim a repousar para melhor tratar depois do filho. 

Tomando então o poldrinho no colo, chamou a tordilha que ligeira acudiu oferecendo as tetas para amamentar o pobrezinho desfalecido. A primeira sucção foi débil e intermitente; depois mais forte e contínua. Não consentiu porém o gaúcho que mamasse muito; e recebida a suficiente nutrição, restituiu-o à mãe sôfrega por ele. 

Caíra o poldrinho no delíquio natural depois de longa privação de alimento; sucedeu um sono reparador, que ele dormiu no regaço e sob os olhos da mãe. Também esta, colhendo alguns molhos de relva fresca e nutritiva, sossegou da agitação e fadiga de tão longa corrida. 

Consentiu a tordilha então que o seu pirralho brincasse, mas longe, para não acordar o camarada; e Manuel batendo o isqueiro chamuscou um pedaço de charque para o almoço. Era passada uma hora. 

Abriu os olhos o poldrinho, inteiriçou os membros trôpegos, e erguendo o curto focinho, soltou um suave ornejo, que na linguagem da natureza exprime o eterno e sublime balbucio da criança, e na linguagem dos homens se traduz por esta palavra-hino: 

— Mamãe. 

Palavra inata, que o espírito traz do céu, como traz a consciência de sua origem. Quando Deus encarna as almas, para semear a terra, imprime-lhes dois emblemas indeléveis: a consciência da divindade e a intuição da maternidade; o verbo divino e o verbo humano. 

Quem pode afirmar que o animal seja ateu? Os mugidos merencórios do gado ao pôr do sol, os descantes das aves na alvorada, os uivos lastimosos do cão durante as noites de luar, o balido das ovelhas alta noite, sabe alguém acaso se esta é ou não a prece do filho da natureza? 

O sentimento da maternidade, esse é de uma evidência muitas vezes humilhante para a raça humana. Em todo o corpo onde há uma réstia de vida, reside uma voz para balbuciar o verbo humano. Desde o rugido do leãozinho até o imperceptível estalido da larva, todo o ente gerado diz — mãe. 

Também seio, dotado de faculdade conceptiva, nenhum há que não palpite íntima e profundamente ao eco daqueles sons. Parece que ele conserva a sensibilidade interna do contato com o filho que gerou; a dor, como a alegria, se comunica e transmite de um a outro por misteriosa repercussão. 

 

XI 

ADEUS 


Cabriola a Morena em volta do filho, agora de todo reanimado. Não parece já aquela ardente natureza, cheia de paixão; tornou-se menina; ei-la agora travessa rapariga, a saltar sobre a relva em dias de folgares. Como alegre caracola, e atira as upas lascivas, soltando relinchos de prazer. As dengosas moreninhas das margens do Jaguarão, não se requebram com mais gracioso donaire, ao som da viola. 

Não é só amor, paixão e culto, a maternidade; mas também e principalmente uma reprodução da existência. Renasce a mãe no filho, volve à puerícia para simultaneamente com ele, a par e passo, de novo percorrer a mocidade e a existência. Deus lhe deu essa faculdade de se desviver, para que transviva na prole; sem isso, como seria possível à débil criatura romper os limbos da infância? 

Há duas concepções. 

A primeira, material, que produz o feto: é a mais breve e a menos dolorosa. Este parto reduz-se à dilaceração do seio quando o rasgam as raízes da nova existência que desponta. Dores cruas, mas inefáveis; lágrimas congeladas, mas que se diluem em júbilos santos! 

Desde que nasce o filho, logo a mãe de novo o concebe, mas dentro d’alma; há aí um seio criador, como o útero; chama-se coração. 

Dura esta gestação moral, não meses, porém anos; os estremecimentos íntimos e os repentinos sobressaltos se transmitem; há um cordão, invisível, que prende o coração-mãe ao coração-filho, e os põe em comunicação. A vida é uma só, repartida em dois seres. 

(continua...)

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