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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Que o não mate! Essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... hein?

— Com a forca?! — atalhou Simão.

— Pudera não! Quer que este homem fique para ir contar a história? Acha bonito? Lá vossa senhoria, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que desta vez tenho o baraço no pescoço. Não me faz jeito o negócio. Deixe-me cá com o homem...

— Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos pode fazer mal.

— O quê! — redargüiu o ferrador — vossa senhoria é doutor, saberá muito, mas de justiça não sabe nada. e há de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. As duas por três, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castrod'ALre a mexer os pauzinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

— Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para Castrod'Aire — exclamou o homem.

— Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora...

— Isso! — acudiu o ferrador — Chame-me João da Cruz... para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz... Como efeito, não sei o que me parece vossa senhoria querer deixar com vida uma alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar.

— Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseráveis que não resistem.

— E, se ele o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor. — Vamos embora — tornou Simão — deixemos por aí esse miserável.

Mestre João cismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com descontentamento:

— Vamos lá. .. Quem o seu inimigo poupa nas mãos lhe morre.

Tinham já saído do plano e saltado o tapada, e iam descendo para a estrada, quando o ferrador exclamou:

— Lá me ficou a minha clavina encostada à sebe... Vão indo que eu venho

já.

O areeiro conduzia o cavalo, que pacificamente estivera tosando a relva das paredes marginais da estrada, quando Simão ouviu gritos. Conjeturou com certeza o que era.

— O João lá está a fazer justiça! — disse o areeiro — Deixá-lo lá, meu amo, que ele é homem que sabe o que faz.

João da Cruz apareceu daí a pouco, limpando com fenos o podão ensangüentado.

— Você é cruel, sr. João — disse o acadêmico.

— Não sou cruel — disse o ferrador — o fidalgo está enganado comigo; é que, diz lá o ditado, morrer por morrer, morra meu pai, que é mais velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como três. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é não se meter a gente nelas. Agora levo a minha consciência sossegada. A justiça que prove, se quiser; mas não há de ser porque lho digam aqueles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se ter ligado com tal homem.

CAPÍTULO VII

O ferimento de Simão Botelho era melindroso demais para obedecer prontamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aforismos de alveitaria. A bala passara-lhe de revés a porção muscular do braço esquerdo; mas algum vaso importante rompera, que não bastavam compressas a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o acadêmico deitou-se febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O areeiro partiu para Coimbra, encarregado de espalhar a notícia de ter ficado no Porto Simão Botelho.

Mais que as dores e o receio da amputação, o mortificava a ânsia de saber novas de Teresa. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda, precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas dele. As pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens tinham aparecido mortos, e constava serem criados dum fidalgo de Castrod'Aire, Ninguém, porém, ouvira imputar o assassínio a determinadas pessoas.

Na tarde desse dia recebeu Simão a seguinte carta de Teresa:

"Deus permita que tenhas chegado sem perigo a casa dessa boa gente. Eu não sei o que se passa. mas há coisa misteriosa que eu não posso adivinhar. Meu pai tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sair do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janela do meu quarto; senão, eu nem tinha modo de lhe dar sinal para ela esperar esta carta. Não sei o que ela me disse Falou-me em criados mortos; mas eu não pude entender... Tua mana Rita está-me acenando por trás dos vidros do teu quarto...

Disse-me agora tua mana que os moços de meu primo tinham aparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu aí estás, mas não me deram tempo. Meu pai de hora a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muitos altos.

Ó meu querido Simão, que será feito de ti?... Estás ferido? Serei eu a causa da tua morte?

(continua...)

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