Por Aluísio Azevedo (1884)
Este plano não tem nada de mau, porque, graças às circunstâncias auspiciosas que o cercam, ele promete um resultado magnífico.
O vagabundo chama-se João A. Castro Malta, nome que se confunde com o teu e a mulher que vive em companhia dele tem o mesmo nome da filha e dizem que se parece com ela.
Ora, nestas condições. é muito fácil obrigar os teus perseguidores a um formidável engano; tanto mais se atendermos a que a Jeannite e o Campello, aproveitando a tua prisão, acham-se refugiados em Paquetá. Ele para escapar das vistas da sociedade e principalmente das vistas da própria família, ela para se esquecer de ti, que afinal és o único homem verdadeiramente amado por semelhante demônio.
Demônio, sim, que outro nome não merece aquela mulher; demônio, porque a maldita jura e afiança que te há de fazer todo o mal possível. Demônio, porque a sua cólera e o seu despeito não se saciam com o simples fato da tua prisão e querem a tua morte.
Tu, porém, não hás de morrer enquanto eu existir no mundo. Sou teu amigo, prometo defender-te e será mais fácil reduzirem-me a postas do que levarem a efeito os seus diabólicos projetos.
Logo que te soltem, o que espero sucederá amanhã ou depois, corre à Rua da Misericórdia nº. * * *, sobe ao segundo andar dessa casa, bate três vezes na porta que hás de encontrar no tope da escada e, quando te aparecer um sujeito calvo, de barbas loiras, dize-lhe apenas. “Ué, ué, catu.” Esse sujeito te responderá. ‘To be at the threshold of the door.’’ E levar-te-á imediatamente a um quarto, onde poderás esconder a tua amante e onde encontrarás tudo de que precisares durante um mês, sem sair de casa.
Se não nos virmos antes de te encerrares aí e, se porventura der-te na veneta sair à rua, não tenhas o menor escrúpulo em confiar Margarida ao sujeito das barbas loiras, e, quando voltares à casa, repete a frase que te ensinei para a primeira vez.
Aqui terminava a carta, isto é: até aqui chegava o que dela se podia ler, porque o resto tinha sido intencionalmente obliterado com qualquer substância corrosiva.
Quando terminei a leitura, volvi os olhos para o quarto: João Alberto continuava a dormir a sono solto. Consultei o relógio, eram quatro horas da tarde, guardei no bolso alguns dos objetos encontrados nas algibeiras do Malta, outros escondi nas gavetas da minha secretária, pus o chapéu na cabeça e sai, deixando a porta cuidadosamente fechada por fora.
Na rua principiei a notar que me doía o estômago; era falta de alimentação; desde a véspera que eu nada havia comido.
Entrei num restaurante, pedi um jantar e deliberei metodizar os meus raciocínios, enquanto mo servissem.
Achava-me ainda entre a sopa e o segundo prato, quando ouvi por detrás de mim a voz de minha sogra, que conversava com alguém.
Ela não dera comigo e, graças a um aparador que havia entre as nossas mesas, podia eu escutá-la à vontade, sem ser descoberto.
- Pois é como lhe digo - rosnava minha sogra. - Pois é como lhe digo. Meu compadre Quintino afiançou-me que isto não ficará no pé em que se acha! Ele já anda tratando da questão e, ou eu muito me engano ou a cousa dará pano para mangas! Pois onde já se viu semelhante embrulhada? Agora, só o que eu desejo é ver minha filha para lhe perguntar o que foi feito do homem com quem ela fugiu do lorpa do marido, porque, segundo me consta, esse homem também desapareceu, assim sem mais nem menos!
- Também desapareceu?
- Pois não! Desapareceu no mesmo dia em que foi solto.
- E ninguém dá noticias dele?
- Ninguém. Uns entendem que ele fugiu, outros que foi assassinado por meu genro; eu, porém, não aceito nenhuma dessas explicações; a primeira porque João Alves não fugiria sem me participar; e a segunda porque conheço o gênio do marido de minha filha e sei que ele é incapaz de matar quem quer que seja.
- A senhora se dava com ele?
- Com quem? com o João Alves?
- Sim.
- Dava-me. Conheço-o da casa da Jeannite, de quem fui engomadeira durante dois anos.
- Essa Jeannite não é aquela do Dr. Campello?
- É.
- E que foi feito dela?
- Sei cá! Dizem que está ainda metida com o homem em Paquetá.
Nisto o diálogo foi interrompido por um terceiro personagem, e minha sogra passou a boquejar sobre novos assuntos. Eu, que já tinha completado o jantar, saí do hotel e tratei de seguir a indicação da carta.
Tomei para a Rua da Misericórdia e, durante toda a viagem, ia repetindo mentalmente a frase simbólica: “Ué, ué, catu!”
Quanto mais me aproximava do misterioso ponto indicado pelo singular protetor de Castro Malta, mais acelerado me batia o coração.
Que me esperaria ainda? Que terríveis surpresas me aguardariam naquela casa, a cuja porta tinha eu de bater três pancadas, como se batesse à porta de um templo maçônico?
Fiz-me forte e resolvi submeter-me ao que desse e viesse.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.