Por Aluísio Azevedo (1882)
Gregório sonhara quanto não seria bom fazer existência ao lado de uma mulher moça, bonita e carinhosa.
— Definitivamente era preciso casar! pensava ele; aquela vida miserável de homem solteiro não lhe poderia convir! ganhava o bastante para si e para a mulher; não tinha por conseguinte razões que o forçassem a contrariar as suas aspirações
e... diga-se tudo, o seu amor, porque afinal de contas já não podia imaginar a felicidade senão já amava Clorinda e em companhia dessa criatura adorável.
A viúva, sem que ninguém lho dissesse, compreendeu e avaliou tudo o que se passava no espírito do seu amante.
Como mulher de experiência, adivinhara, ao primeiro sintoma dos novos amores de Gregório, a tempestade que se armava, e, ainda como mulher de experiência, tratou de disfarçar o seu sobressalto e desviar a nuvem carregada de eletricidade.
Mas tudo foi debalde: pouco depois Gregório pediu Clorinda em casamento e as coisas tomaram o caminho que o leitor já conhece.
Mal sabiam, coitados! o que lhes estava reservado ainda!
CAPÍTULO VII
APALPADELAS
Júlia, ao sair da secretaria de polícia, levava o coração encharcado de sobressaltos; as dúvidas, os terrores, as saudades do amante, enchiam-na toda de uma grande tristeza histérica.
Entrou em casa sem dar uma palavra à criada, que a seguia com os olhos espantados. Depois, arremessou o chapéu, a capa, e afinal a roupa, e deitou-se de bruços na cama, a soluçar desesperadamente.
Às sete horas da manhã, quando a criada penetrou no seu quarto, para lhe entregar um papel que vinha da polícia, achou-a já de pé e vestida em trajos de sair.
— Que mais teremos?! perguntou ela consigo, sem disfarçar o aborrecimento.
Era uma nova intimação policial.
— Ainda está aí o portador disto? perguntou à criada, depois de correr os olhos pelo papel que tinha nas mãos.
— Não, senhora; retirou-se.
— Bem. Eu saio depois do almoço. Olha, se na minha ausência vier procurar-me quem quer que seja, dize-lhe que tenha a bondade de esperar um pouco. Não me demorarei.
Mal tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando vibrou fora a campainha. A criada correu ao portão, e voltou logo, dizendo que um homem de meia idade e bem vestido procurava pela senhora.
— Faze-o entrar para a sala.
E a criada fez entrar o Dr. Roberto.
— Desculpe-me, se tomo a liberdade de incomodá-la, minha senhora sem ter a honra de conhecê-la, mas desde ontem que ando doido por saber qualquer notícia a respeito de Gregório; e, já porque me consta que ele não lhe é igualmente indiferente, como porque sei que V. Exa. conversou com a noiva e conversou também com a polícia, não resisti ao desejo de vir pessoalmente pedir-lhe que me diga com franqueza o que é feito desse pobre moço, a quem estimo como se fosse meu filho. Ia ser seu padrinho de casamento e fui por bem dizer o padrinho do seu amor...
— Ah!
— Ele conheceu Clorinda em minha casa, e eu, convencido de que só a família traz consigo certa estabilidade e certo amor pelo trabalho, procurei o melhor que pude aproximá-los um de outro.
— Ah!
— Gregório, continuou o Dr. Roberto, tem bom caráter, muito coração, algum talento, mas muito pouco juízo. E dos meus! A vida de solteiro acabaria por inutilizá-lo completamente; sonhei aquele malogrado casamento como se fosse eu próprio o noivo! Calcule, por conseguinte, minha senhora, como não estarei desapontado, tonto, com o que se passou, e como não estarei louco por saber que fim levou o nosso pobre Gregório!
— Ele amava muito a noiva?
— Extraordinariamente.
— Sabe disso com toda certeza?...
— Que interesse o poderia levar a casar senão o amor?...
— E ela correspondia a esse afeto?
— Creio que com o mesmo entusiasmo. Porque me pergunta isso, minha senhora?
— Naturalmente porque isso me interessa. O senhor foi o único encaminhador do casamento de Gregório?
— Pelo menos o mais empenhado para que ele se realizasse.
— E tem ainda esperanças nessa realização?
— Terei depois que V. Exa. mas der, declarando o que sabe a respeito de Gregório...
— Eu sei tanto como o senhor.
— Não sabe nada a esse respeito?!
— Nada?! Pois o senhor não está a par das pesquisas policiais sobre Gregório? não sabe que ele é acusado de um crime de morte e de roubo?!
— É impossível! exclamou o doutor, fazendo um gesto de indignação.
— É a verdade! sustentou Júlia com tristeza. Infelizmente, é a pura verdade!
— Mas o que os leva a supor semelhante coisa?
— Sei cá! O fato de haver ele desaparecido por ocasião do crime, o fato de ter ele sabido que a vítima recebera nesse dia vinte contos em dinheiro, e enfim o fato de ser encontrado no lugar do delito um anel que pertencia ao acusado.
— É inacreditável!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.