Por Aluísio Azevedo (1884)
— É que se dou com a língua nos dentes, vai tudo por água a baixo!
— Ora, deixa-te de tolices e conta lá o que houve! Bem sabes que entre nós não há segredos!
— E antes houvesse! Mal fiz eu em permitir umas certas coisas antes do casamento!... Se não fosse isso, você com certeza não me trataria desse modo, e já teria me levado à Igreja!
O Roberto sacudiu os ombros.
— É! fez Cecília, muito queixosa. Até aqui toda a dificuldade era o enxoval; venho dizer-lhe que o patrão se encarrega disso, e você, em lugar de despachar-se por uma vez, ainda me dá muxoxos e põe-se a desconfiar de mim! Tola fui eu em ir atrás de cantigas! Diabo do traste!
— Deixa-te tu de cantigas e vamos ao que interessa!... Despeja p'r'aí o que houve!
— Não despejo nada! Você não me merece coisa alguma, é um velhaco; enquanto eu me fiz tesa, não lhe faltaram maneiras; agora é isto que se vê!...
E começou a chorar:
— É preciso não possuir um bocado de consciência para enganar desta forma uma pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.
— Guarda as lamúrias para outra ocasião, filha!
— Pois se é como eu digo!... Ingrato! Se eu não o quisesse tanto, não estava agora aqui me arreliando!
— Deixa-te de asneiras... fez o criado, passando-lhe por condescendência a mão na cabeça. Não te podes queixar — eu também gosto de ti!
— Sim, sim: mas o casamento não ata nem desata! dizia ela, soluçando.
— Ora! E que teríamos lucrado nós em nos termos já casado?...
— Que teríamos lucrado! Olha o disparate! Você talvez não lucrasse nada, mas eu?! Penso nisso todos os dias! Até estou mais magra! Lembrar-me só de que você é muito capaz de deixar-me neste estado... dá-me venetas de acabar com a vida!
— Não digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, às mãos te chegará!
E depois de beijá-la, sem carinho:
— Mas vamos lá. Conta o que houve entre vocês, tu e o basbaque do patrão!...
— Prometes guardar segredo?... perguntou Cecília, fazendo por esticar as carícias do noivo!
— Ora!
— Então, lá vai! O patrão quer entrar, sem ser esperado, no quarto da patroa!
— Com que fim?!
— Sei cá! Diz ele que é uma fantasia como outra qualquer!...
— Mas daí?... Que diabo tens tu a ver com isso?...
— Pois aí é que bate o ponto. A patroa fecha-se por dentro; eu fico escondida no quarto para abrir a porta ao marido! Creio que aquilo é arrufo entre os dois!
Roberto coçou a parte inferior do queixo:
— Hun-hun! resmungando. Não sei, não sei! Queira Deus que essa história não te de na cabeça!... Olha que não se encontram duas casas como esta!... Isto aqui, filha, vale mais que o céu!...
— Ora o que! fez a criada. — Não é crime introduzir um marido no quarto de sua mulher!... Aquilo foi arrufo com certeza; ela não quer dar o braço a torcer; mas eu que a conheço, sei que não lhe vou cair em desagrado; ao contrário — verás como me agradece!
— Isso é lá entre vocês, mulheres, que se entendem! Em todo o caso, é bom pensares antes no que vai fazer!
— Deixa correr o barco por minha conta!
Entretanto, o Borges, à proporção que a noite se aproximava, sentia o coração pulsar-lhe com mais força. Ah! desta vez, sem dúvida, iam acabar os seus tormentos. Aquele novo plano não poderia falhar!
Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre no antegozo de uma aventura. Nunca uma alma apaixonada ansiou tanto pela entrevista de seu ideal; nunca os segundos foram contados com tanta impaciência; nunca o momento supremo da ventura foi atraído com tanta sofreguidão.
Borges, assim que viu a casa completamente recolhida, tratou de tirar as botas e subiu pé ante pé ao segundo andar.
Não se pode conceber o sobressalto em que ia o pobre homem; tremiam-lhe as pernas; a cabeça andava-lhe à roda; o sangue afluía ao coração, que parecia querer saltar-lhe pela boca.
— Filomena já devia ter pegado no sono, ou pelo menos estar adormecendo.
Esperou mais um instante. Nada, porém, de aparecer a criada!
Decorreu mais algum tempo — um quarto de hora, uma hora talvez; ele não o podia determinar: sua impaciência fazia parecer uma noite inteira, uma eternidade. — Oh! Como o torturava aquela tardança!
E Cecília nada de aparecer; Borges principiava a desesperar. Haveria alguma novidade... Ela teria ido contar tudo à senhora? pensou o namorado, rangendo os dentes e fechando os punhos!
— Se me traíste, miserável, verás o que te sucede! Verás o que te sucede!
Mas um rumor quase imperceptível veio nesse instante do lado do quarto de Filomena; a porta abriu-se muito de mansinho, e a criada saiu cautelosamente, às apalpadelas, como se não quisesse tocar com os pés no chão.
— Está dormindo?... perguntou-lhe o Borges em segredo, indo ter com ela.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.