Por Aluísio Azevedo (1884)
— Fica-se muito melhor em uma casa de família, continuava o outro. A vida em hotel ou a vida em república é o diabo: estraga-se tudo, — o estômago, o caráter, a bolsa; ao passo que ali você tem o seu banho frio pela manhã, torradas à noite e, se cair doente (o que lhe não desejo), há quem o trate, quem lhe prepare um remédio, um caldo, um suadouro, um escalda-pés...Olhe! até, se você quiser eu...
Mas a porta abriu-se com violento empuxão, e uma mulher loura, gorda, vestida de seda amarela, precipitou-se no gabinete, espavorida, a soltar gritos.
Vinha-lhe no encalço um sujeito idoso, cheio de corpo, o chapéu a ré, o olhar desvairado e convulso.
— Podes ir para onde quiseres, que eu não te deixo! berrava ele em fúria, a dardejar o guarda-chuva sobre as costas da perseguida; esta corria de um lado para outro, procurando escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos e consegui trazê-la contra si, levando os dois aos trambolhões tudo o que encontravam no caminho.
Em menos de um segundo era completa a desordem no gabinete. Caíram cadeiras; a mesa estremeceu com um encontrão, e a saleira e duas garrafas perderam o equilíbrio e tombaram, varrendo copos e esmagando pratos. O tal guarda–chuva havia num dos golpes espatifado os globos do candeeiro, e um dos fragmentos do vidro fora de encontro ao espelho e o fizera em pedaços.
— Isto não tem jeito! Gritou o Paiva ao homem. — O senhor faz mal em invadir desta forma um gabinete ocupado!
Mas o invasor já não ouvia coisa alguma e acabava de sair aos pescoções com a sujeita.
Paiva atirou-se-lhe à pista, armado de uma garrafa. O gerente do hotel apareceu, porém, cortando-lhe o passo e pedindo-lhe, por amor de Deus que não fizesse caso, que deixasse lá os dois se esbordoarem à vontade!
— Era o costume! Acabariam por entender-se perfeitamente!.
— O senhor então acha que isto é razoável?! perguntou o Paiva furioso. — Não, decerto!
E o gerente dava aos rapazes toda a razão: Deviam estar maçados, mas que tivessem paciência! que desculpassem! Não fora possível evitar tão grande sensaboria: O Brás, em questões de mulheres, perdia sempre a cabeças! E ele não sabia que diabo de rabicho tinha o basbaque pelo demônio da Rita Baiana, que, de vez em quando, era aquilo!
— Pois que se vá enrabichar para o diabo que o carregue!
— Decerto, decerto! apoiava o gerente, procurando acalmar o estudante.
— Ajuste as contas onde quiser, menos nos gabinetes ocupados pelos outros!
Arre!
— É exato! Os senhores têm todo o direito, mas por quem são, não façam caso! Não façam caso.
— E esta! insistia o Paiva. – Pois se a gente paga muito mais para ficar em liberdade, como diabo há de se admitir isto?!...
— Tem toda a razão! Tem toda a razão!...repetia o gerente, erguendo as cadeiras e apanhando do tapete os cacos de vidro.
Só então intervieram os outros rapazes. Amâncio, até aí, parecia colado à cadeira .Estava lívido e as pernas tremiam-lhe.
O gerente ia responder a todos, quando a porta se tornou a abrir, e o Brás, ainda transformado pela comoção da briga, ofegante e pálido, quase sem poder falar, entrou, dizendo, — que ia pedir desculpa da grosseria por ele praticada há pouco.
— Mas estava possesso! justificava-se ele. — Aquela não-sei-que-diga lhe fazia perder as estribeiras! Que o desculpassem, porque um homem em certas ocasiões nem se podia conter! Uma mulher, com quem já havia gasto para mais de dez contos de réis!...exclamava ele fora de si. Uma mulher que erguera da lama podia assim dizer! Uma desgraçada que antes de o conhecer, não podia ir a parte alguma por não ter um vestido capaz!...Uma miserável, que dantes, para matar a fome, precisava aviar encomendas de costura e se andar alugando na casa de modistas!...Era duro! Pois não achavam?!
Os estudantes meneavam a cabeça ,afirmativamente.
— Ah! continuou o Brás. — Aquelas contas tinham-se de ajustar na primeira ocasião em que ele a encontrasse com o tal troca-tintas! Ah! Já não podia! Era demais! Uh!
E passeava no gabinete, a empurrar com o pé os cacos esquecidos no chão, e a sorver o ar em grandes haustos, consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da consciências.
As palavras do Brás tranqüilizaram os rapazes, cuja embriaguez parecia ter fugido com o susto. O Simões chegou mesmo a rir do fato, jactando-se mais uma vez da sua eterna indiferença pelas mulheres. — Com ele é que nunca haveria de suceder semelhante coisa!...afirmava.
Amâncio convidou o Brás a beber, e vazou-lhe vinho num copo.
— Aquela descarada! resmungava o ciumento, examinando uma arranhadura que vinha de descobrir na mão direita. — Ela, porém, comigo está iludida! — ou me anda muito direitinha ou há de me ficar debaixo dos pés! Pedaço de uma ingrata! E, voltando-se para o gerente que acabava de entrar;
— O sujeitinho foi-se, hein?
— Ora!...respondeu aquele com um riso servil. — Ganhou logo a rua e...por aqui é o caminho! Ela é que pelos modos, ficou bem convidada! Meteu-se no quarto a chorar.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.