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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Tenha a bondade de sentar-se, disse oferecendo ao Lemos o sofá; e desculpar-me este desarranjo de quem acaba de chegar. 

- Sei. Desembarcou ontem? 

Seixas confirmou com a cabeça: 

- A que tenho a honra de receber? 

Lemos tirou do bolso uma carta que apresentou ao moço, fitando nele o olhar perspicaz. 

- A pessoa que me fez a honra de apresentá-lo, sr. Ramos, merece-me tudo. É para mim uma fortuna esta ocasião de provar-lhe minha estima, pondo-me inteiramente às ordens de V.S. 

Quando Seixas pronunciou o nome Ramos, o velhinho desfez-se em mesuras corrigindo Lemos, mas com uma presteza e no meio de tais afinados de garganta, que não o percebeu o seu interlocutor. 

Eis a explicação do equívoco. Ao chegar à sua casa na rua de São José, Lemos tinha traçado um plano, como indicava este monólogo: 

- O que não tem remédio, remediado está. Desengane-se, meu Lemos: com a tal menina é escusado trapacear que ela corta-lhe as vasas. Portanto o que de melhor pode fazer um espertalhão da sua marca, é tirar partido da situação. 

Saltando do tílburi, o velhinho subiu ao sobrado, donde voltou logo munido de um par de óculos verdes, que usara outrora por causa dum ameaço de oftalmia. Fez ao cocheiro sinal de acompanhá-lo, e dobrou pela rua da Quitanda. 

Pouco adiante entrou em uma loja: 

- Ó comendador, dá-me  aí uma carta de apresentação para o Seixas. 

O negociante a quem estas palavras eram dirigidas puxou pela memória.

- Seixas... Não conheço! 

- Hás de conhecer por força. Vamos, escreve lá. Em favor do sr. Antônio Joaquim Ramos. 

Era esta a carta que o tutor de Aurélia acabava de apresentar ao Seixas. Viera ele confiado nos dois disfarces, o dos óculos, e o do nome recomendado. 

Se apesar disto o moço o reconhecesse, ele acharia meio de sair perfeitamente da dificuldade. 

- Desculpe-me, V.S., se o procuro logo no dia seguinte ao da sua chegada, quando ainda deve estar fatigado da viagem; mas o assunto que me traz é de sua natureza urgentíssimo. 

- Estou pronto a ouvi-lo com toda a atenção. 

- É negócio importante que exige a maior reserva e discrição. 

- Pode contar com ela. 

O Lemos bamboleou-se na cadeira com sua frenética alacridade e prosseguiu: 

- Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços. 

Lemos fitou os olhinhos de azougue no semblante do Seixas. 

- Fui encarregado por essa família que me honra com sua amizade de procurar a pessoa que se deseja, e minha presença aqui, neste momento, significa que tive a fortuna de encontrá-la. 

- Sua escolha devia lisonjear-me o amor próprio, se o tivesse, sr. Ramos; porém há de compreender que não posso aceder... 

- Perdão; em negócio tenho o meu sistema. Faço a proposta com lisura, sem omitir os encargos e as vantagens, porque não costumo regatear. O outro pensa, e aceita se lhe convém. 

- Já vejo que é um verdadeiro negócio que me propõe? Observou Fernando com ironia cortês. 

- Sem dúvida! Atestou o velho. Mas ainda não disse tudo. A pequena é rica bastante e dota o marido com cem mil cruzeiros em moeda sonante. 

Como Seixas se calasse: 

- Agora V.S. me dirá se posso levar uma boa decisão? 

- Nenhuma! 

- Como assim? Nem recusa, nem aceita? 

- Sua proposição, sr. Ramos, permita-me esta franqueza, não é séria, disse o moço com a maior urbanidade. 

- Porque razão? 

(continua...)

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