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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Levantara-se a Morena e pela rampa íngreme subira ao respaldo do penhasco. Ali estava entre os troncos das palmeiras, sob um arbusto embastido, a cama de folhas e grama, que servira de berço ao filho. Entre o fino capim, sobre a crosta argilosa do rochedo, descobriam olhos vaqueanos o rastro de um casco pequeno e ainda vacilante, a julgar pela leve depressão da terra. Baralhado com este o rastro maior do puma, seguindo um trilho de sangue na direção da selva. Em todo o circuito, desde a fenda até à mata, o chão estava profundamente escarvado pelos cascos da égua. 

Para o fundo, o terrado declinava e abrupto sumia-se por funda barranca; era aí o ventre da caverna a que a fenda servia apenas de glote. Acompanhando o movimento do animal que em risco de precipitar-se alongava o pescoço, sondava Manuel as profundezas da gruta. 

Nesse momento ouviu-se um som débil e flente que vinha da fenda. A mãe aflita correu para ali e tornou a chamar ansiosamente o filho. Entanto os ramos se afastavam e outra égua, de pêlo tordilho, se aproximou, seguida do seu poldrinho; viera trazida pelo rincho da companheira. Eram amigas; abraçaram-se cruzando o pescoço e acariciando-se mutuamente as espáduas. Depois de trocadas estas primeiras carícias, a recém-chegada começou uma série de movimentos entrecortados de rinchos que deviam ser a narração eloqüente dos sucessos anteriores. A Morena atendia imóvel. 

Presenciou o gaúcho do alto aquele terno colóquio, que veio completar a notícia colhida na confissão da baia e na investigação do terreno. Sabia agora toda a verdade do triste acontecimento. 

Havia oito dias que tivera a Morena um lindo filho alazão. Uma tarde, quase ao escurecer, o puma assaltara a malhada do poldrinho, que recuando intrépido para fazer face ao inimigo, escorregara pela rocha e caíra na gruta. Acudira a mãe; perseguiu o animal carniceiro, e lhe fendeu o crânio com as patas. Quando fazia os maiores esforços para tirar o filho, foi ali cativa do chileno, atraído pelos rinchos angustiados. Na sua ausência conseguira o poldrinho galgar até à fenda e introduzir por ela o focinho. Foi então que a tordilha, condoída do órfão, se roçara com a lapa a fim de pôr-lhe as tetas ao alcance. Amamentou-o assim alguns dias; mas os torrões argilosos, onde pisava o animalzinho, cederam aprofundando-o pela caverna. Lá devia estar, pois, inanido, a soltar o último alento. 

 

MAMÃE 

 

Sem hesitar penetrou Manuel na gruta. 

Era difícil a entrada, pela angústia da passagem, que formava a laringe da caverna; a garganta já era estreita e sinuosa; mas ali duas cartilagens do rochedo cerravam o canal. A saliva que segregavam as porosidades calcárias do granito, umedecia todo esse tubo, e o forrava de um muco limoso. 

Compreendia-se bem como a caverna devorara tão rapidamente o poldrinho. A imitação da jibóia o envolvera da baba, para que resvalasse ao longo da garganta. Mais uma semelhança que mostra o padrão uniforme de cada região da terra. As monstruosidades da natureza animada têm um ar de família com as monstruosidades da natureza inerte. O elefante, o maior quadrúpede, é filho do Himalaia. A sucuri, a maior serpente, é natural do Amazonas. O pássaro gigante habita os cimos da América sob o nome de condor, e os da Ásia sob o nome de roque. 

Depois de longos e contínuos esforços, conseguiu o rapaz arrancar da gorja do rochedo uma das guelras. Ficaram-lhe as mãos ensangüentadas; mas nem reparou em tal coisa. Introduziu a cabeça, logo após os ombros e surdiu enfim no ventre da caverna. O poldrinho arquejava a um canto. Imediatamente o suspendeu com ternura e mimo, cingindo-o ao seio, para transmitir-lhe o calor vital. Mal gemera a cria, apareceu na entrada a ponta do focinho da Morena. 

Em risco de estrangulação a mísera mãe se alongara pela gruta a dentro, soluçando e rindo; soluçando pelo filho moribundo, e rindo pelo filho ainda vivo; duplo sentir e avesso, que somente se explica pelo fluxo e refluxo do oceano, a que chamam coração. 

Ergueu Manuel o poldrinho, que a égua segurando pelas clinas tirou fora da gruta e pousou sobre a relva, deitando-se para o conchegar a si. 

Em semelhante situação, a mulher mãe embebia a criança de lágrimas e beijos, e a cerrava ao seio para aquecê-lo ao seu contato. A égua mãe lambeu o filho e o cobriu todo de uma baba abundante e vigorosa. No fim de contas a carícia materna é a mesma no coração racional, como no coração animal; uma extravasão d’alma que imerge o filho e uma influição do filho que se embebe n’alma.  

A mulher chora, soluça, beija e abraça; a égua lambe, e nesse único movimento há a lágrima, o soluço, o ósculo e o amplexo: o amplexo da língua, que é o abraço inteligente do animal. 

(continua...)

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