Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Atira ao da esquerda — disse João da Cruz.
Foram simultâneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um cadáver. Os balotes do areeiro não estremaram o outro entre o carrascal onde se embrenhara.
A este tempo assomava Simão no teso donde lhe tinham atirado, e corria ao ponto onde ouvira o segundo tiro.
— É vossa senhoria, fidalgo — bradou o ferrador.
— Sou.
— Não o mataram?
— Creio que não — respondeu Simão.
— Este desalmado deixou fugir o melro — tomou João da Cruz — mas o meu lá está a pernear na vinha. Sempre lhe quero ver as trombas...
O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o cadáver, dizendo:
— Alma de cântaro, se eu tivesse duas clavinas, não ias sozinho para o inferno.
— Anda daí! — disse o areeiro — deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido num ombro. Vamos depressa, que está o sangue a escorrer-lhe.
— Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima da ribanceira, e cuidei que eram vocês — disse Simão, enquanto o ferrador, com a destreza de hábil cirurgião, lhe enfaixava com lenços o braço ferido. — Parei o cavalo, e disse: "Olé! há novidade?" Logo que me não responderam, saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quis saltar à ribanceira, mas não pude romper o mato. Dei uma voltar grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar ferido.
— Isto é uma arranhadura — disse João da Cruz — olhe que eu sei disto, fidalgo! Estou afeito a curar muitas feridas.
— Nos burros, mestre João? — disse o ferido, sorrindo.
— E nos cristãos também, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro médico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo, que está uma rede de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir ressuscitar aquela alma do diabo que ali está a escutar a cavalaria.
Nisto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha saltado o companheiro do morto.
João da Cruz, como galo de fino olfato, fitou a orelha e resmungou:
— Querem vocês ver que eles se armam!.
Dar-se-á caso que o outro ainda esteja por ali a tremer maleitas?
O rumor continuou, e logo um bando de pássaros rompeu dentre a folhagem, chilreando.
— O homem está ali — tornou o ferrador. — Passe-me cá uma pistola, senhor Simão!
Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande restolhada se fez entre as moitas de codessos e urzes.
— Ele estrinça lenha como um porco do monte! — exclamou o ferrador, — Ó cunhado, bate este mato com alguns penedos; quero ver sair o javali da moita!..
Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra dum agüeiro.
— Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me! — bradou Simão ao ferrador.
— Pois o fidalgo já aí anda!? Então está fechado o cerco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não há nada seguro neste mundo!
Não se enganaram. O criado de Baltasar Coutínho, quando se atirara desamparado à brenha, deslocara um joelho, e caíra atordoado. O areeiro não examinou o efeito do tiro, porque atirara à ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se até encontrar um cercado de árvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem, esvoaçando, o criado de Baltasar retrocedeu para o mato, cuidando que aí escaparia; mas o areeiro jogava enormes calhaus em todas as direções, e alguns acercavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolso da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestas que se emaranhavam em redor do esconderijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco fruto do trabalho, disse ao areeiro:
— Petisca lume, vai ali dentro buscar um pouco de restolho seco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão há de morrer assado.
O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo do restolho em que o areeiro andava apanhando palha e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o areeiro e o acadêmico sobre ele, O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigaria àquela desgraça. Já a coronha do bacamarte do areeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço.
— Não se bate num homem ajoelhado! — disse o moço — Levanta-te, rapaz!
— Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada e estou aleijado para a minha vida!
Neste comenos chegou o ferrador, e exclamou:
— Pois esse tratante ainda está vivo!?
E correu sobre ele com o podão.
— Não mate o homem, senhor João! — disse o filho do corregedor'.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.