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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a mão de el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse ao capitão-mor que o levasse a Calvos, e o abade que participasse a el-rei que estava ali um próprio com uma carta de Vasco da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões.

– Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, imediatamente, num pronto. Depois, põe-te de joelhos. e entrega-lhe a carta, percebeste? Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho cá o fardamento. No caso de Sua Majestade me mande ir, vou; se não, trato de chamar às armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.

Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho nem ao pai, receando as expansões usuais da carraspana.

O Cerveira dizia ao padre Rocha, capelão de D. Andresa:

– Ideias não me faltam; mas esqueci aquilo que se chama... sim, aquilo com que se escreve, quero dizer...

– Ortografia?

– E como diz, :padre Rocha, ortografia.

Era o exórdio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava no concelho da Póvoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não se metia nisso; e acrescentava: – ele, o rei, aqui há treze anos sabia tanta ortografia como eu; mas agora dizem as gazetas que ele estudou coisas e loisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse a carta para ele a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão no ombro: – E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abadia, Santiago de Antas, hem? serve-lhe? ou antes quereria ser cónego? Enfim, pense lá... Nós cá estamos às ordens.

O padre era a fina flor do clero realista. Sensato, inteligente e honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia voz a chegada do seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando mais nas atitudes firmes e desempeno da língua, julgou-o sandeu, amolecimento cerebral pela alcoolização; por fim convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns desfrutadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo, que a mulher e as filhas enlameavam torpemente. Ele avisara D. Andresa que, no dia em que o Sr. Dr. Adolfo entrasse nos Pombais pela porta principal, ele sairia pela porta travessa; e a fidalga levam tão a mal o proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos dele e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se nesse tempo que o Dr. Adolfo da Silveira era juiz de Direito nos Açores e tinha consigo uma formosa amante com três meninos.

A única ideia com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta foi que escrevesse: – Vossa Majestade precisa de dinheiro, diga o que quer, que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo às ordens de el-rei meu senhor.

O padre Rocha não se esquivou a colaborar na endrómina, dizia ele a D. Andresa – porque .

A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir comentários, explicações. Que estava uma obra profunda – dizia o fidalgo, instruído enfim nas obscurezas do estilo.

E, tirando seis pintos do bolso do colete:

– Aí tem para o seu rapé, merece-os.

O capelão não aceitou; pediu que os aplicasse por sua intenção às necessidades do Sr. D. Miguel.

– É um realista às direitas, padre, um grande realista! – E, guardando os seis pintos, abraçou-o efusivamente e ofereceu-lhe um cálice de 1817.

– Eu desejaria muito ver a resposta de Sua Majestade – dizia o padre Rocha.

– Isso é logo que ela chegar, padre! pois então? Cá entre nós não há segredos; e, se o amigo quiser, no caso que el-rei me mande ir, vai comigo, e pode logo vir despachado. Pois então?

– Está dito! – e o padre com um regozijo muito cómico, e o cálice aromático debaixo do nariz: – Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó Sr. Tenente-Coronel!

– Ora! como dois e dois são quatro! Há-de ser arcebispo, não tenha dúvida. Isto vai tudo mudar! – E carregava-lhe forte no 1817. – Arre! estou aqui metido há doze anos nestes montes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 anos: mas este punho ainda pode com a espada! Há-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia às vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvém, e o Mata e o Miguel Alcaide davam cacetada nos O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o cálice. O padre despediu-se.

VI

(continua...)

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