Por Coelho Neto (1898)
O Gama, no seu posto, olhava indifferente a luz sem ver as bellezas d'aquelle remansado porto, d'aguas tão limpas e faceis e de tanta alegria na terra e no céu; o seu pensamento seguia por aquellas areias razas, não que as desejasse mas porque n'ellas suspeitava encontrar o homem que o devia conduzir á extrema do Levante. Talvez em terra, entre o arvorêdo basto, esse desejado amigo estivesse contemplando as naus que deram fundo á meia legua da costa; talvez os olhares se encontrassem e o Gama, descuidoso de tudo que o cercava, com a afflicção de ver esse mysterioso guia, aguçava as pupillas que apenas apanhavam a vasta paizagem d'Africa dourada pelo sol nascente.
Meditava quando o mouro principal dos que vinham no zambuco subio ao castello pedindo para fallar-lhe : recebeu-o cortezmente e, propoz-lhe o prisioneiro, que tivera, em viagem, todas as attenções, ir-se á terra com uma embaixada para o rei de Melinde, garantindo que elle os havia de receber com lhaneza.
Acceitou o Gama mandando immediatamente arriar um batei que levou uma guarnição d'escolha e, forrando-lhe o paneiro lustrosamente, acompanhou á escada o velho mouro que se foi, a largas remadas, sempre a acenar para os de bordo como a garantir o bom exito da commissão de que se encarregara e, como em a nau ficára a moça, esta fallava-lhe, sem duvida a pedir que fosse breve para resgatal-a porque já se affligia de andar como captiva posto que tivesse trato de princeza, e os mouros agitavam os seus turbantes ou os lenços de cores vivas que traziam até que o barco ficou como um vulto negro no mar.
Mas, ao pino do sol, quando as toldas estalavam á luz caustica, viramos da nau que uma almadia os demandava e, atracando, logo desembarcaram, com gravidade, dois homens, postos com muita riqueza sendo um d'elles magnata da corte melindana e outro o caciz da mesquita e, recebidos com todas as deferencias, com muita galhardia deram conta da embaixada que traziam, principiando por entregarem ao Gama, como prova de alliança, o regio annel que do soberano levavam, assegurando bôa hospedagem em terra com as honras que merecia.
E, como terminassem a falia, dois negros, com marlotas e barretes de seda, á cinta adágas curvas, subiram com presentes de fructas e, pondo-se de joelhos, offereceram ao Gama, com um gesto tão cortez e tão gracioso que o secco navegador sorrio agradecendo.
Em resposta disse o capitão quem era e porque andava por aquelles mares, entre tormentas, traições, syrtes e marraxos, enaltecendo subidamente o poderio do seu Rei e a grandeza da sua Pátria, rica e forte. E, em troca dos presentes que recebera, outros mandou á terra pelos embaixadores constando de varias peças de vestuario, alambeis e ramos de coral.
No dia seguinte, ao luzir d'alva, largaram os navios de onde estavam para que mais proximos ficassem do porto e alli mandou o rei nova embaixada a bordo, com presentes e instancias para que desembarcassem indo os nautas repousar em terra mas o Gama, advertido pela experiencia que tinha das demonstrações fallazes de amizade que lhe haviam dado os outros regulos, negou-se, desconfiado, dizendo que trazia do seu Rei prohibição expressa de deixar o seu posto em os navios em outro porto que não aquelle que ia procurando, e, se contrariamente procedesse, falhando á disciplina, abriria um perigoso precedente á gente que commandava.
Resolveu então que, saindo o rei em um dos seus barcos, sairia elle em outro, encontrando continuasse dos seus barcos, sairia elle em outro encontrando-se sobre as aguas. No dia ajustado para a entrevista, desde cedo, começou a gente a mover-se na praia com alvoroço: cavalleiros, com os mantos ao vento, traziam os seus ginetes caracolando; ao fulgor do sol áscuas scintillavam nos ferros das lanças e os muros brancos das casas refulgiam destacando-se vivamente, em largas manchas, entre os pomares cerrados; altas, esguias, com os seus pennachos verdes, perdiam-se ao longe as columnadas das palmeiras.
O Gama, querendo mostrar-se com esplendor, mandou adornar o seu batel forrando-o de estofos; um brocado, com precioso cadilho de ouro, alastrava o paneiro protegido por um toldo de seda com franjas e, sob o toldo, n'um assento de finos embutidos e marchetes de ouro e coral ia elle, entre os seus officiaes, vestidos com louçaina; os mesmos remeiros ostentavam os seus trajos a primor e tanto era o fausto que os estropos que prendiam os remos aos toletes eram de fina seda e, por ostentoso luxo, as abas dos forros, rolando das bordas do batel, iam roçando n'agua - e, com a bandeira real desfraldada á popa e galhardetes nas driças foi-se o batel affastando com o estridor das trombetas que os de bordo assopravam alegremente.
Já de terra partira o monarcha melindano n'uma almadia de graciosa fôrma e ornada custosamente. Vestia o rei uma ampla cabaia de damasco forrada de setim verde e á cabeça trazia a fóta de sêda com torsaes de ouro e arrecadas de perolas que com o fino estofo se embrechavam.
O peito, como se do peso se sentisse, arfava sob um collar ou tosão cravejado de pedras preciosas e, tão longo era que, dando duas voltas folgadas ao pescoço, lhe descia á altura da cinta ; os dedos pareciam ser de ouro e de gemmas tantos eram os anneis que por elles se enrascavam.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.