Por Aluísio Azevedo (1884)
Calcule-se o interesse que me produziu essa denunciadora cautela, logo que me saltou à cabeça a idéia de um broche justamente naquelas condições, que possuía minha mulher.
Foi já com as mãos trêmulas e o coração aflito que prossegui à busca no terceiro bolso da carteira.
Encontrei uma fotografia. E adivinhe-se de quem!
Da Jeannite.
Nas costas do retrato lia-se escrito em bastardinho:
A mon petit bien aimé.
E grudado ao fundo do bolso estava uma estampilha do correio.
Passando à segunda algibeira do fraque, encontrei um maço de papéis, que tratei logo de inventariar, declarando pelo seguinte modo o que eles continham:
1º - “João Alves. - Se já não precisas da Nana, devolve-ma, que o dono ma reclamou por duas vezes. - Teu, Costa Rosas.”
2º - “O Sr. João Alves Castro Malta deve a Gaspar Leite & C. cinco mil-réis, importância de um jantar. - Recebi, 8 de Novembro de 1883. - Gaspar Leite & C.” 3º - “Joãozinho. - Espero-te hoje. Meu marido está de serviço. - Tua, X.” A letra deste bilhete não me era conhecida, felizmente.
4º - “lImo. Sr. Castro Malta. - Segunda-feira mato um peru e minha filhinha faz anos.
Venha jantar conosco. Se quiser pode trazer o Mello. - P.S. Não esqueça o violão. - Seu, Mendonça de Freitas.”
5º - “Sr. Castro. - Estou cansado de procurá-lo em casa e na rua. O senhor tem caçoado deveras comigo; pensei que tratava com um homem sério e tratei com um velhaco. Se até o dia 31 deste mês o senhor não pagar o que me deve, entrego a sua conta a um procurador. - Thomaz Cardoso.”
6º - “João Alves. — Vê se me aprontas o discurso. O dia do casamento está a bater à porta, e tu bem sabes que eu prometi fazer um improviso. - Teu primo e amigo, Cazuza.” O sétimo documento era um artigo de fundo cortado da Gazeta da Tarde.
8º - Seis cartões iguais de uma casa de móveis.
9º - Um lápis com bainha de metal.
10º - “Hir à Rua Primeiro de Março nº. 20, procurar no escritório dos fundos a ordem do Sr. Comendador Manoel da Silva Braga para me ser entregue a chave de sua chácara, em Catumbi.”
11º - “Amônia - 30 gramas. H,O - 100 gramas.”
Nessa algibeira havia mais dous charutos e um caderninho de mortalhas Abbadie.
Passando ao bolso de fora do fraque encontrei um lenço barrado de azul, com um monograma composto de um R, um S e um B.
Este lenço cheirava a água-da-colônia misturada com fumo.
Nas algibeiras de trás havia um outro lenço sem marca e enxovalhado e uma caixa de fósforos de pau.
Nas algibeiras do colete encontrei um relógio, cuja corrente pendia a uma das casas dos botões; uma fosforeira de platina cheia de fósforos de cera; uma pequena chave de trinco e uma outra de gaveta; um botãozinho de colarinho, obra de madrepérola; três níqueis de 200 réis e mais dois vinténs embrulhados em papel; ainda um décimo da loteria de São Paulo; um limpador de unhas; um pedaço de papel em que estava escrito “Rua do Conde d’Eu nº. 8’’ e mais um vidro esfumado de óculos ou lunetas.
Nas calças encontrei quatro mil-réis em notas miúdas, oito cigarros, um pedaço de vela estearina, um canivete, e atrás, perto do cós, em uma algibeira disfarçada, havia um revólver de seis tiros, completamente carregado e em descanso.
Já desanimado, ia abandonar a roupa do miserável amante de minha mulher, quando descobri o bolsinho da luva e, aí, rebuscando avidamente, encontrei uma carta que me elucidou mais do que todos aqueles documentos e da qual darei parte ao leitor no seguinte capítulo.
A essa carta devo eu o bom resultado das minhas pesquisas. Mas, não precipitemos os acontecimentos.
XI
Eis a carta:
João Alves. - acabo de obter informações que te prometi no momento em que te recolheram à Casa de Correção, em companhia da tal Margarida. Essa mulher fatal, por quem te apaixonaste e que ainda te dará muitas ocasiões de desgosto.
Logo que foste seguro pela Polícia, corri à casa da Jeannite e vim a saber que não era esta a promotora da tua prisão, como supunhas, mas sim o Dr. Campello da Fonseca, autoridade que conheces muito melhor do que eu.
Esse procedimento do Dr. Campello é sem dúvida conseqüência do ciúme. O homem está cada vez mais apaixonado pela Jeannite e, quando descobriu as tuas relações com ela, não trepidou, para se vingar, de prevalecer-se da sua posição de autoridade policial.
É triste, mas é assim.
Por outro lado, a Jeannite, que estava a ferro e fogo contigo por causa da Margarida, tratou de atiçar as cóleras do Campello e, com tanto afinco trabalhou, que foste afinal dar com os ossos na Casa de Correção.
Em todo caso não desanimei e, auxiliado pelo nosso amigo comum o Tobias, que bem sabes é empregado na polícia, espero provar que o Castro Malta, de que se trata, não és tu, e sim um vagabundo que mora ultimamente com a mãe de Margarida.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.