Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

D. Josefina era a antítese perfeita da amiga. O que tinha esta de flácida e moleirona, tinha a outra de ativa, impaciente, curiosa e ralhadeira. Nunca ficava sossegada num lugar: de manhã à noite vivia a saracotear pela casa, a dar fé de tudo, até que enfiava o vestido, punha a capa e corria às amigas para boquejar sobre os conhecidos.

Falava de tudo e de todos sem o menor escrúpulo, e desconfiava de toda a espécie de homem, passados, presentes e futuros. O longo e rigoroso celibato, a que sempre vivera amarrada e que por muito tempo lhe zurzira os nervos, acabara por torná-la frenética e ruim. Josefina tudo perdoava a qualquer pessoa, menos a felicidade do amor, nem admitia que alguém tomasse a sério isso a que ela chamava "Mal de tolos!"

Nesse ponto extremava perfeitamente com a outra, que se comprazia em acompanhar voluptuosamente o progresso de qualquer namoro, e até a auxiliá-lo; o que muito devia aproveitar a Gregório, como efetivamente teremos ocasião de ver mais adiante.

Mas deixemos tudo isso à margem, para nos ocuparmos da segunda razão que levou Gregório a jantar todos os domingos com o Dr. Roberto.

Essa razão era a circunstância especial de haver se retirado para a Europa a família com quem morava o rapaz.

Tal razão aparecerá pouco óbvia à primeira vista, porém não é. O leitor, se nunca morou em família ou se nunca teve de separar-se daquela com quem convivera indefinidamente, não poderá avaliar o alcance do que avançamos; mas, se ao contrário, o leitor é um desses muito infelizes, que de um momento para outro se vêem privados das pessoas com quem habitava, para seguir um destino de desordem e boêmia, o leitor nesse caso avaliará o peso de nossas considerações e sentirá o valor da opressão em que ficou o nosso pobre herói com a partida da família entre a qual vivia.

É preciso ter experimentado o que isso é, para saber quanto custa. Antes da separação não seríamos capazes de imaginar o estado em que ficamos; então, até se nos afigurava que a coisa não havia de ser objeto de pena e mágoa.

Suponhamos que a vida exterior, com seus teatros, as suas palestras de café, os seus almoços ruidosos e cheios de riso, as suas aventuras picantes, as suas peripécias, as suas alegrias efêmeras, compensariam perfeitamente a convivência habitual e burguesmente amiga daqueles com quem morávamos. Ilusão! pura ilusão! A rua, o teatro, as sofres, os passeios, a conversa descuidosa dos amigos, não substituem absolutamente o que nos falta em casa. Todo esse conjunto de impressões, todo esse barulho de gozos, mais ou menos passageiros, não nos enchem o vácuo insondável deixado por aqueles, em cujos corações nos podíamos refugiar confiantemente, quando voltávamos desiludidos e cansados de percorrer toda a escala das falsas sensações exteriores.

Abençoados lares. Quão pouco é necessário para o bom resultado de vosso mister sagrado e consolador! Uma pequena vivenda humilde e pobre, um pouco de sol, um pouco de ar, o produto de algumas horas de trabalho, tudo isto iluminado de amor e boa vontade — e eis aí os elementos de uma felicidade completa.

Comparai os dois sentidos. De um lado o desafeiçoado pândego, que vive au jour le jour, comprando fôlego a fôlego a sua vida inútil e egoísta; de outro lado o trabalhador modesto, que moureja durante o dia para prover a subsistência da mulher que ama e a dos filhinhos que à noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe, ri, galanteia as mulheres, mas volta para a cama do hotel em que mora ou da amante que lhe pertence na ocasião, com o corpo cansado e gasto e a alma desconfortada e fria. Tudo lhe causa aborrecimento, tudo o enche de tédio: os amigos, os prazeres e o próprio vício. Acorda sempre de mau humor, não encontra em coisa alguma um lado que o seduza e prenda. Enquanto o outro, o burro de carga, aquele que durante o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele que devia ao chegar à noite sentir-se cansado e indisposto, esse entra em casa quase sempre cantarolando e sempre sorrindo; abraça a mulher, beija os filhos, afaga o cão, dá uma vista de olhos pelo jardim e assenta-se ao lado dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela dignidade do seu esforço, abençoado por aqueles que vivem da sua atividade e do seu amor, e afinal deita-se a dormir, tranqüilamente, com o coração despreocupado, o sangue fresco e a consciência lisonjeada.

Tais foram as considerações que fez Gregório, quando se sentiu só e desamparado de qualquer afeição doméstica.

Que terrível noite a primeira que ele passou depois que partiu a família com quem morava! Tudo lhe parecia triste e insociável; tudo o encarava com uma fisionomia dura e antipática; os mesmos trastes da casa, dantes tão familiares e amigos nas conversas de depois do jantar, se mostravam agora concentrados e macambúzios, como se tivessem alguma razão de queixa contra ele; parecia que os moradores haviam morrido todos e que andavam seus espíritos a pairar nos ares silenciosamente, como o fumo preso dentro de uma sala.

Foi nestas circunstâncias que viu pela primeira vez Clorinda e que aceitou sem discutir o convite para jantar aos domingos em casa do Dr. Roberto.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1516171819...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →