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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Você é uma boa rapariga! principiou ele. É fiel, bem procedida e diligente!...

Cecília olhou-o espantada.

— Eu sempre tive boas intenções a seu respeito, continuou o Borges. Minha mulher está satisfeitíssima com o seu serviço!

— São bondades... balbuciou a rapariga, abaixando os olhos.

— Não! A verdade diz-se!... Sou-lhe grato, sou! Para que negar?... e fique sabendo que hei de ajudá-la no seu casamento!...

A fisionomia da criada iluminou-se, e, sem dizer palavra, ela pôs-se a torcer e destorcer o seu avental de algodão.

— Sei das suas intenções com o Roberto, e estimo que se casem. Pode contar com o enxoval!

Cecília quis beijar-lhe a mão.

— Não tem que agradecer. Olhe! guarde isto para comprar um vestido novo.

E o Borges meteu-lhe nos dedos uma nota de vinte mil réis.

— Oh! meu rico amo! exclamou ela com os olhos úmidos de comoção — como vosmecê é bom! Eu e mais o Roberto havemos de lhe agradecer por toda a vida!

— Bem, bem! disse o Borges, mas preciso que você me preste um serviço, um pequeno serviço...

Cecília adiantou-se mais, cheia de solicitude.

— É quase nada!

E abaixando a voz depois de olhar cautelosamente para os lados:

— Desejo penetrar hoje no quarto de minha mulher.

A criada recuou estupefata. Agora o seu rico amo lhe parecia simplesmente doido. Que diabo queria dizer aquilo?!...

O Borges compreendeu o espanto da rapariga e disfarçou:

— Sim; sim! Não era uma simples questão de lá ir!... Isso seria o menos.

Puf!

— Então? animou-se a perguntar Cecília.

Mas é que eu queria entrar sem que minha mulher contasse comigo, percebe?...

A criada fez-se vermelha.

— Vosmecê então desconfia de minha ama?! Que aleive, meu Deus! Uma injustiça assim! Desconfiar de uma senhora que é mesmo um anjo! Uma senhora que...

— Não! não é isso, filha! Quem lhe falou aqui em desconfiança?! Ninguém desconfia de sua ama. Está a tomar o pião à unha! — ninguém conhece melhor minha mulher do que eu!

— Ah! respirou a criada, credo! até me deu uma coisa na boca do estômago!

— Está claro que sua ama, nesse sentido, é o beijinho das esposas! Não tenho que me queixar, graças a Deus! Mas eu queria lá ir, sem que ela me esperasse; percebe? É uma fantasia como outra qualquer!... Vosmecê nem tem que se comprometer com isso... Ela, no fim de contas, é minha mulher, que diabo!

— Meu amo quer que eu lhe arranje a chave do quarto?...

— Qual! Isso não adianta nada! Ela tem um ferrolho, fechadinho por dentro.

— É exato, é! disse a criada, lembrando-se de já ter visto o tal ferrolho.

— Pois aí é que bate o ponto! Trata-se de arranjar os modos de abri-lo por dentro, sem que ela o saiba, compreende?

A criada ficou a pensar. Mas para que exigia o amo semelhante coisa?... A senhora podia ficar maçada e voltar-se contra ela!...

— Não tenha receio! disse o Borges. Eu respondo por tudo! Valha-me Deus!

não é nenhum crime querer um homem entrar no quarto da sua mulher!...

— Vosmecê então promete?...

— Que a não deixo ficar mal? Ora! nem tem que saber!...

— Não e isso... digo: ajudar-me no meu...

— No seu casamento?... Pode ir descansada, contanto que arranje o que lhe disse.

Ficou assentado que Cecília nessa noite se esconderia no quarto da senhora, e, quando esta já estivesse dormindo, abriria cautelosamente o tal ferrolho, que ela, por cautela, untaria previamente com azeite. E se a criada guardasse bem o segredo de tudo isso, nem só teria o seu enxoval prometido, como ainda havia de chimpar um par de brincos à moda.

— Mas veja lá agora se vai dar com a língua nos dentes!...

Foram as últimas palavras de Borges.

A criada saiu dali para ir ter com o Roberto.

— Esta noite não te posso aparecer senão mais tarde, disse-lhe ao vê-lo.

Tenho que ficar no quarto da senhora.

— Há alguma novidade?

— Não! É cá uma coisa. É cá um negócio com o patrão! — E ria-se. — Eu não te posso dizer mais nada!...

— Olé! Então, é coisa de segredo?...

— Estou a dizer que é, homem!

— Segredo! Você tem segredos com o patrão?!

— Mau, que me tomas o pássaro no ar! Eu nada tenho com o patrão! Tenho é de ficar no quarto da senhora!

Roberto mordeu a ponta do bigode:

— Tu premeditas alguma, raio de uma peste! Já! dessem bucha p'r'aí, se não queres que eu te faça falar por outro modo!

— Mas é, que eu não te posso dizer nada! Só o que te afianço, é que as coisas vão mudar de figura! Não tens mais razão de demorar o nosso casamento; o amo cai com o enxoval e ainda com uma ajuda de custas! Heim? que te parece?

— Parece que tudo isso me cheira a patifaria! Donde saiu agora essa bondade do patrão?!

E vendo que a criada não respondia:

— Não tencionas desembuchar, criatura?!

(continua...)

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