Por Aluísio Azevedo (1884)
descreveu a sua indiferença por elas. Só lhes conhecia dois gêneros: “a mulher cínica e a mulher hipócrita”.
Paiva Rocha protestava: — Havia muita mulher honesta, verdadeiros anjos de virtude! E que deixassem de falar! em certas ocasiões uma boa rapariga tinha o seu cabimento! Sim! Quem não gostava da estética?...
Amâncio era da mesma opinião, e queixou-se de sua infelicidade no Rio a esse respeito.
— Ainda é cedo! elucidou o Salustiano. — Quando te começarem as aventuras, hás de ver o quer vai por essa sociedade!
— Não é tanto assim! opôs o Coqueiro. — Vocês são todos homens dos extremos!
E voltando-se confidencialmente para Amâncio :
— O doutor, decerto, encontrará uma mulher perigosa, de quem deve fugir como o diabo da cruz; mas terá também ocasião de ver algumas raparigas bem educadas, honestas e inteligentes. Não as vá procurar na alta sociedade, não, que aí se escondem as piores! mas indague-as por baixo, na mediocracia, que as há de descobrir. E olhe, se quer aceitar um conselho de amigo, case-se! Não há melhor vidinha! Estou casado há três anos e ainda não tive um segundo de arrependimento! ...Ao menos conserva-se a saúde, desenvolve-se o espírito e trabalha-se mais ...O método, homem! o método é o segredo da existência.
E, puxando a cadeira par mais perto de Amâncio, falou-lhe em voz baixa. Que no Rio de Janeiro era preciso ter um amigo sincero, não que “primasse nos menus ”, mas que fosse capaz, que tivesse imputabilidade mora! — Amâncio estava defronte de duas estradas; uma que conduzia à verdadeira felicidade e outra que conduzia à desordem, ao vício e à completa desmoralização! Que se não deixasse levar pelos pândegos!... (E olhava à esconsa os dois outros companheiros). Aquilo era gente sem nada a perder!... Amâncio, enfim, que aparecesse no Domingo e teriam ocasião de falar mais de espaço. Não deixasse de ir: havia muito que dizer e conversar.
Amâncio prometeu de novo.
O almoço chegara ao ponto em que todos os comensais falam todos ao mesmo tempo e em voz alta. Havia agitação; afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do gabinete. Simões discutia com o Paiva a incompetência dos professores da Politécnica.
— Uma súcia! uma cambada! sintetizava ele. — Se fosse preciso despedir dali os que não prestam, não ficaria nenhum!
O outro protestava, gritando e batendo punhadas sobre a mesa. Havia já dois copos quebrados.
O criado trouxera a sobremesa, – uma salada russa.
Paiva pediu gelados e quis que lhe dessem uma omelette au rhum. “Não podia passar sem isso ao almoço!” Suavam.
Amâncio tornava-se expansivo: falou de seus amores na província; contou as suas intenções a respeito da mulher do Campos.
Ela parece que o que tem é medo, dizia. – Mas eu sou perseverante! Espero!
— Menino, segredou-lhe o Paiva. — Vai aproveitando, porque é isso o que se leva deste mundo!
— E o mais são histórias!...concluiu o filho de Vasconcelos.
E fazia-se muito fino, perigoso, e continuava a parolar com embófia, loquaz um pouco sacudido pelo almoço.
Coqueiro estudava-o de socapa, a seguir-lhe os gestos, a fariscar-lhe as intenções. Dos quatro era o único que não estava tonto: seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a mesma penetração e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca estreita, bem guarnecida e quase sem lábios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro e frio, de quem escuta e observa.
Era de altura regular, compleição ética, rosto comprido, de um moreno embaciado, pouca barba, pescoço magro , nariz agudo, mãos pálidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido incerto, entre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava, quando muito, vinte e dois.
O Paiva erguera-se para fazer um bestialógico, e soltava de enfiada frases sonoras e ocas de sentido: ouvia-se falar em “gazofiláceos, camelos da Patagônia e constelações híbridas do mapa-múndi”. Simões, o macambúzio, derreara a cadeira contra a parede e jazia a palitar a boca, estendido para trás, em uma posição de homem farto: barriga ao vento, braços moles e um olhar muito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em sorrisos de preguiça. Amâncio reatava a sua conversa com o Coqueiro.
— É como lhe digo, recapitulava este. — Aquilo não é um hotel, é uma – casa de família! Não temos hóspedes, temos amigos! Minha mulher é quem toma conta de tudo!...E dando à voz um tom grave: — Ela é muito asseada, muito exigente em questões de comida! Você não imagina!...Ao almoço temos três pratos, a escolher, leite, chá ou café, e vinho ;pelo almoço pode calcular o que não será o jantar! — E depois é preciso observar a qualidade dos gêneros!...enfim, só mesmo você indo ver!
Amâncio reprometia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.